Encontrei um boi tentando se coçar no tronco de uma árvore na entrada de um sítio. Parecia solitário, mas ao mesmo tempo tranquilo, sentindo a brisa massageando suas orelhas cendradas. Desci do carro. Não havia ninguém além dele. Ameacei me aproximar e o boi manteve os olhos em minha direção.

Não parecia incomodado com a minha presença. Cheguei perto, parou de se coçar e ficou me olhando por instante, sem mover qualquer parte do corpo, como uma estátua de carne e osso. Cheguei mais perto.

Continuou se esforçando em vão. Ainda mais perto. Não achou ruim. Massageei sua cabeça adornada por um belo par de chifres, uma verdadeira raridade num universo onde cornos são cerrados logo cedo.

Quando encostei a mão em seu dorso, abaixou a cabeça e depois a levantou. Então passei a mão exatamente onde ele não conseguia se coçar. Parecia criança e seu corpo tremia. Minutos depois, me afastei e um homem chegou:

— Ele é manso mesmo. Só tem essa cara que às vezes dizem que assusta, mas é bom de tudo. Não tem maldade nenhuma, diferente da gente.
— É o senhor que mora aí?
— Não…era a casa do Seu Barbosa. Só que ele já morreu e o boi ficou.
— Como assim? E nunca tentaram matar ele?
— Esse aí? Esse aí é o Tucurunda. É boi, mas a vizinhada cuida dele e respeita por causa da história dele.
— Que história?
— Ele salvou um menino de morrer afogado.
— Como assim?
— O Joinha foi criado junto com ele, o filho do Seu Barbosa, e há muito tempo ele os primos foram brincar no açude ali pra baixo. Quando o menino pisou em falso e afundou, o boi tava na margem e começou a mugir, mugir bem alto, até que o Seu Barbosa ouviu e veio correndo. Ele pulou na água e deu tempo de puxar o menino ainda com vida. Graças ao Tucurunda, né?
— Que história incrível…
— Pois é…e dizem que boi não fala.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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