Do que é feita a empatia pelos animais não humanos? Da capacidade de vê-los sofrendo e instantaneamente compreender isso como algo que se provocado deve ser evitado, não mais realizado?
Posso dizer que é de colocar-me em seu lugar, mas não coloco-me em seu lugar porque não tenho a capacidade de experimentar o que seu corpo experimenta e como experimenta. Então a empatia, se é sobre um animal não humano fisicamente vitimado, vem das associações que faço com experiências de dor e de sensações negativas que conheço e permito-me repensar, levando-me a uma repetição de considerações.
Se reconheço-as como desagradáveis a ponto de não querer que sejam experimentadas por um animal não humano, ainda que classificado como produto de um sistema, defino esse meu interesse como empatia. E porque converge a um interesse que entendo ser também do animal, de não ser submetido a algo que não é do seu agrado – como confinamento (também forma de cativeiro), violações físicas (e emocionais) e morte por imposição.
No entanto, compreendo também que o que mais incita empatia, ainda que tenha um efeito efêmero que não gere mudança, é principalmente a maneira como sofre, as manifestações físicas e a exposição estética da privação e da debilitação – como seu corpo reage a dor, como a violência fustiga e lacera seu corpo; como uma criatura decresce no processo gradual de desaparecimento, inerente, por exemplo, ao sistema alimentar.
Isso explica por que fotos mais explícitas de violência associada a diferentes tipos de exploração animal geram mais atenção, mais reação, mais indignação – o que também não significa uma mudança de comportamento do observador em relação ao que vê. Mesmo um grande choque pode não transformar-se em algo sobre o qual reconhecemos ou assumimos qualquer responsabilidade, desejo ou ação visando descontinuidade.
Assim reconheço que há níveis de empatia – que nos permitem não fugir ao nosso próprio estacionamento ou que nos motivam a mudar – evocando duas extremidades. A primeira é recorrente se sinto-me mal pelo que vejo, porém esqueço, ou então torna-se uma lembrança que sobre mim já não tem efeito. “Tenho dó dos animais, mas gosto de carne” é emblemático dessa realidade. Isso depende também não apenas das conexões que faço, mas de como serão mantidas e percebidas depois.
Ademais, se uso para ilustrar este texto uma imagem de um animal que sofreu e foi materializado de maneira, que pode ser intencional ou não, a permitir ideias de inexpressão e normalidade (reforçadas por ausências ou indisposições que são nossas, não daquele animal), porém, deixando um vazio a ser preenchido pelo espectador com significações, talvez não haja impacto porque as pessoas estão habituadas à visceralidade da realidade ou ao comum exercício de distanciamento.
Mesmo entre pessoas que têm empatia pelos animais não humanos é comum o registro explícito, que pode ser interpretado como expressão explícita, ser mais digno de repercussão do que o que parece implícito. Mas e se o explícito é, na realidade, menos latente do que o implícito? Porque registros são momentos, são brevidades.
Nossos olhos podem nos enganar em relação ao que é pior e, claro, podemos sempre culpar quem oportunizou tal construção da realidade, que é sua representação, mas talvez o exercício imagético seja exatamente o que precisamos para observar além da obviedade.
Uma imagem onde você não vê a dor de um animal pode ser uma imagem em que você não a reconhece, o que não significa que não esteja ali, até porque há estados em que a maior expressão de sofrimento em um cenário de dor pode ser exatamente aquela em que não a enxergamos. E se isso acontece é porque estamos transitando por níveis de percepção ou de empatia.
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