Os galhos secos combinavam com o corpo seco da vaca, os ossos destacados – secura pelo que não comia porque já não produzia. É preciso “dar”, mesmo sem querer ou poder, para “receber”. A pá carregadeira despejou o corpo da vaca ainda viva na caçamba.
Fez estrondo e um som doloroso. Ela se levantou, com a cabeça bastante ferida e olhou pra cá, onde não poderia mais estar. Não tinha força pra escapar. Ficou parada como estátua, com sujeira sobre o corpo, e expressão de dor que ninguém poderia ocultar.
O lugar provisório dela era o lugar onde transportavam lixo – o que tem dor num espaço para o que não tem dor. Qual é o lugar da dor? Quando falta leite, cobram-lhe a carne – o que já não pode ser tirado do corpo é compensado pelo despedaçamento desse corpo. Quando o fim do leite não é a carne?
A caçamba foi levada, passando pela vontade de tanta gente que a impulsionava. Os desejos humanos dão vida à vaca, para em conveniência ser tirada da vaca. É da estranha vontade humana matar tantas vacas.
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