Categorias: Opinião

É justificável tanta violência contra animais aquáticos?

Foto: Unparalleled Suffering

Optei por usar a imagem de um peixe “capturado”, sendo asfixiado, mas não para apresentar uma reflexão sobre peixes, e sim sobre “frutos do mar”. Sei que para muitas pessoas a imagem de um peixe morrendo não gera tanto impacto quanto a de um mamífero, embora mais do que a de um caranguejo, já que os animais não humanos também são considerados e desconsiderados por suas formas, aspectos, semelhanças e diferenças em relação aos humanos.

Sem dúvida, “frutos do mar” é um termo intrigante. Permite rápida associação com uma imagem de que o mar está gerando o tempo todo “frutos” para consumo humano, como se houvesse um pacífico simbolismo. “Fruto do mar” sobressai-se a uma ideia de que é sobre “animais”, porque a percepção como “fruto” é preponderante.

A concepção de “fruto do mar” para camarões, caranguejos, moluscos, lagostas e outros animais com carapaça ou concha é tão genérica quanto pode ser, e resume uma grande diversidade de animais a um termo que leva a uma crença de “não condição animal” – pela preeminência do “fruto”.

Disso surge uma romantização e leva-me a pensar em quantos animais aquáticos são reduzidos a “frutos do mar”, como se não fossem “outra coisa” a não ser “fruto”, e que associa-se a uma crença de “algo que habita” e como se somente para dele ser retirado e comido.

Então a função do “fruto”, que é um animal, é apenas estar disponível, como se assim fosse e devesse sempre ser. Quem diz que há algo de errado em consumir “frutos do mar”? O que esse vocábulo, se pensamos estritamente nele, pode incitar de não pacífico? É mais um exemplo de como termos são constituídos para a conveniência humana em detrimento de outras espécies.

“Fruto do mar” é um termo que trivializa a condição não humana, resumindo-a a uma funcionalidade ingerível. Claro, alguém pode dizer que há algo de belo na concepção de “fruto do mar”, mas se esse “fruto do mar” é também um animal, e por ser determinado como “fruto” é entendido como algo que existe para ser comido, a beleza do termo é somente uma apologética vazia, irrealista e insidiosa.

Afinal, sua constituição e reprodução são favoráveis à crença de que antes de um animal ser um animal, e provavelmente não sendo pelo processo comum de irreconhecimento, é apenas um “fruto”, um “fruto do mar”. É justificável tanta violência contra animais aquáticos?

 

Foto: ABC Science

Saiba Mais

Segundo a organização Faunalytics, com base na plataforma Fish Count, estima-se que de 790 bilhões a 2,3 trilhões de animais aquáticos são capturados e mortos por ano.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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