Categorias: Contos e Crônicas

E se bois tivessem asas para fugir do matadouro?

Conseguiu autorização em um matadouro pequeno para assistir o fim de um animal – novilho de olhos grandes, escuros e pelagem amendoada. Trazia numeração presa à orelha, resultado da produtificação – pra lembrar que era “algo de comprar, vender e comer”, como se não fosse criatura de emoção e sentimento.

“Talvez estivesse brincando pouco antes de ser enviado para o abate, ou pelo menos tentado. Por que não? Quando entrou no box, não pareceu agir como se já soubesse o que aconteceria ali.”

Os olhos do novilho iam de um lado para o outro, até que estranhou. Ficou incomodado com o espaço pequeno e recuou. Ameaçou sair por um canto, não deu. Por outro, também não. Quem sai dali?

Um dos chifres curtos mirava o atordoador, que privaria o novilho de sua consciência, que violaria e destruiria sua sensibilidade. “Talvez tudo fosse diferente se bois tivessem asas…”

Mas o ser humano as cortaria e provavelmente as transformaria em algum tipo de ingrediente que diriam ser “requintado” ou não, ou insumo para outro “benefício” humano. Talvez virasse adereço de carnaval, artigo de decoração ou instrumento musical.

“É…teriam de ser asas bem escondidas, e que migrassem de lugar, aparecendo somente quando o boi reconhecesse que sua sobrevivência depende delas. Precisariam ser fortes, bem fortes e deveriam desaparecer após cada defesa, ressurgindo da imperceptibilidade.”

Mas aquele novilho não tinha asas e nunca teria. Não possuía defesa natural contra humanos. Era dócil até mesmo com medo. Quando arregalou os olhos, viu o que não viu. Um disparo sobre a cabeça o deixou com olhar perdido, desconcertado, esvaziado. A arma, chamada instrumento, não assusta, foi feita pra ludibriar. Era a primeira camada de morte que o cobria. Não havia ninguém por ele, e o pouco que era já não era – e foi levado dali.

“Será que tudo seria diferente se tivesse asas? Asas grandes e fortes que o levassem para um lugar bem distante. Mas onde há liberdade para um animal tão explorado pela sua vulnerabilidade?”

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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