Categorias: Opinião

E se os produtos voltassem a ser animais?

Imagem: PXB

E se todos os animais que têm partes expostas neste supermercado aparecessem com vida neste lugar? Digo a mesma coisa sobre ingredientes e outros mais que estão por todos os lados deste grande espaço.

Duvido muito que caberiam aqui. As pessoas nem teriam por onde passar, e seriam minoria diante duma imensidão de criaturas não humanas. E o impacto dos sons que poderiam emitir vocalmente ou por meio de outras partes do corpo?

Estou aqui entre a seção de frios e o açougue. Já posso imaginar centenas de criaturas reivindicando suas partes violadas, fatiadas e separadas como se nunca tivessem integrado o mesmo corpo.

Que fizessem uma tremenda algazarra! Uma barulheira fenomenal! Que manifestassem da forma mais explícita possível a contestação contra essa institucionalizada subjugação.

Quantos perceberiam que uma escolha que depende de uma ausência de escolha de outrem é uma escolha gerada a partir da imposição? É conveniência perpetuada pela negação do que é o outro, do direito sobre si, sua corporalidade, sua vontade.

E se ficassem irritados e destruíssem tudo por aqui? Eu poderia dizer que estão errados? E se arrebentassem a vitrine do açougue? E se destruíssem o sistema de refrigeração da seção de frios? E se atravessassem todas as seções derrubando expositores? E se arrebentassem tudo que encontrassem?

O que ganham os animais com a exposição de suas matérias mortas para consumo humano? Alimentar para matar é bondade? Ser criado para morrer ou morrer em consequência de uma avaliação que já o define como mais valioso morto do que vivo é justo?

Apenas em um mundo de valores distorcidos, onde achamos tão normal atribuir valor monetário à vida e à morte. E o que poderiam ganhar quando já não estão aqui? Suas partes estão aqui e ali para ingestão irrefletida numa continuidade que parece infinita.

Qual é a recompensa? Quantos daqueles pacotes a um metro e meio de mim dizem que vocês estão ali? Não dizem. É o que muitos preferem. Continuo imaginando como seria tê-los aqui. Do que se encheriam os olhos das pessoas? Acredito que pelo menos os significados se multiplicariam.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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