Em filme distópico, não há mais animais criados para consumo no campo

 

 

No filme distópico “Foe”, de Garth Davis, que no Brasil recebeu o título “Intruso”, baseado no livro homônimo de Iain Reid, não há mais animais sendo criados para consumo no campo.

Mesmo que o mundo retratado seja um mundo devastado, assolado por megassecas, com uma realidade em que 820 milhões de crianças nunca viram chuva e um alerta na TV de que é preciso “neutralizar séculos de exploração e negligência”, o consumo de animais não desaparece, mesmo ambientalmente reprovado.

Isso continua e tendo como alvo um animal criado para ser explorado em uma realidade de grave escassez de recursos naturais, o frango, mais geneticamente modificado e menos frango do que nunca, e porque é o animal que nesse cenário representa a ferocidade da destruição, e também por um viver tão minúsculo, tão miserável e artificializado.

Um dos protagonistas, Junior (Paul Mescal), trabalha em uma “linha de produção” da indústria avícola, e em uma das cenas há uma imensidão de frangos pendurados e mortos, com seus corpos pálidos, e sequer podemos ver onde isso termina, o que evoca um infinito, uma destruição sem fim, mesmo que o mundo já tenha atingido um ponto que crê-se de irreversibilidade.

Em uma das cenas, Junior, o substituto, na sua versão mais sensível e reflexiva, que remete ao Junior de tempos atrás, que já não existe, e é criado por meio da tecnologia para ocupar o lugar na Terra do Junior verdadeiro e tornado fatalista, enviado para participar compulsoriamente de uma missão espacial de colonização, reflete sobre o consumo de um sanduíche de carne em um refeitório.

Ele narra com incômodo que as pessoas “trituram aquilo”, que foi vivo, até virar uma pasta nojenta. “E o que não engolem fica preso aos dentes amarelos e gengivas infeccionadas. A costura de todos nós é feita pelo excremento que a gente produz por dentro. Nossa imundície, nossa gordura.”

Onde Junior trabalha, embora ele lide com frangos mortos, não vemos em nenhum momento o sangue e a violência, não vemos nada que remeta a um pensar na morte, e também porque a concretude da morte é negada. O filme explora outros elementos simbólicos, como os cavalos livres, que distanciam-se de um celeiro em chamas, uma liberdade para ser vivida em um planeta em chamas.

O filme está disponível no Prime Video.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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