E se o cliente fosse parte do menu?

No filme “O Menu”, após ingerir “animais e ecossistemas inteiros”, clientes também devem fazer parte de um prato

Há uma cena no filme “O Menu”, de Mark Mylod, em que é afirmado que os chefs brincam com os materiais crus da vida e da morte, numa referência ao que é precedente à disponibilidade, que é também a manipulação de animais vivos e mortos.

Portanto, os clientes do restaurante situado em uma ilha são lembrados de que o que eles degustam está em constante relação com a vida e com a morte, e evoca não só o que está “pronto” como o que precede o que é modificado por mãos humanas.

“Sente um gosto de cabra bem no final? Um filhote”, comenta uma cliente sobre o que não tende a ser pontuado. O chef (Ralph Fiennes) interpela um casal sobre um prato que experimentaram e dizem ser bacalhau.

O chef corrige – linguado. A mulher comenta que isso não importa, ao que o chef replica: “Importa para o linguado.” Se para quem come é irrelevante o animal que morreu, pode-se dizer o mesmo sobre a experiência do animal escolhido para ser morto?

Se a beleza das criações está na natureza efêmera do que é proporcionado a partir da cozinha, como exposto em “O Menu”, isso também é efêmero pelo que antes já era efêmero, que é a breve vida que só é breve pelo desejo que impulsiona o que é oferecido.

O chef rejeita eufemismos para referenciar o que é proporcionado aos clientes quando afirma que eles vão ingerir animais e ecossistemas inteiros.

“Examinem cada pedaço que colocarem na boca. Sejam conscientes.” Ele tenta estabelecer uma ponderação que reconhece como predominantemente ausente pelos abusos do que é conveniente e sobre os quais também se inclui.

A indiferença humana pelo não humano é exemplificada na crueldade normalizada no relato do cliente que classifica como arte cortar um molusco na última contração muscular.

Imersos em si, os clientes demoram a perceber que são parte do menu, e estarão tão mortos quanto a vida que faltava ao que comeram; e porque para o chef o menu só faz sentido se os clientes também morrerem.

E eles morrem, como sobremesa, depois que a carne de um cordeiro (uma referência sacrificial), mal preparada por um cliente, é servida.

Uma das clientes antes questiona: “Vou morrer hoje? Isso é arbitrário.” E os interesses humanos não são arbitrários em relação a outros animais?

O filme, que também traz no elenco Anya Taylor-Joy, Nicholas Hoult e John Leguizamo, está disponível no Star+.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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