Em “Underwater”, humanos são caçados no fundo do oceano

No filme, antes a missão era voltada para a exploração econômica, que leva à desconsideração da vida no fundo do oceano, até que a situação se inverte

Para propor uma reflexão sobre o especismo e sobre o impacto que o interesse econômico em detrimento da vida causa no mundo natural, é possível usar como referência o thriller de ficção científica “Underwater”, de William Eubank.

No filme protagonizado por Kristen Stewart como a engenheira Norah Price, uma equipe trabalha para uma empresa mineradora que instala uma broca na Fossa das Marianas, o local mais profundo dos oceanos. Um dia, os exploradores recebem uma resposta das criaturas que vivem no local, que destroem a estação usada pela equipe, forçando uma fuga.

Antes a missão era voltada para a exploração econômica, que leva à desconsideração da vida que existe no fundo dos oceanos, até que a situação se inverte. Se a sobrevivência dessas criaturas é ameaçada por uma empresa mineradora, elas fazem com que a sobrevivência dos intrusos também seja dificultada.

Logo há uma retribuição por esse especismo, porque se não houvesse especismo, por que ambientes naturais seriam explorados dessa maneira? Em uma cena, durante a exploração para checar se há outros sobreviventes, eles matam o filhote de uma criatura desconhecida e tornam-se um alvo ainda mais crítico. Uma pesquisadora da equipe reconhece o erro geral:

“Perfuramos o fundo do oceano. Retiramos demais. Agora ele está pegando de volta. Não deveríamos estar aqui embaixo. Ninguém deveria.”

A afirmação de Emily Harvesham (Jessica Henwick) traz o reconhecimento de uma realidade comum, de que o ser humano, quando começa a explorar algo, conciliando interesse econômico e consumo, não conhece limites se o retorno financeiro for bastante satisfatório.

Esses limites não são estabelecidos principalmente se a vida afetada é vida facilmente desconsiderada, até pela ratificação da crença de que nada é mais importante do que a exploração voltada ao ser humano e preterindo consequências.

Mais tarde, Norah, que não tem mais como fugir, provoca uma explosão que culmina também na morte das criaturas que os perseguiam. Mas isso é algo a ser celebrado?

A mensagem final é de que haverá uma reconstrução, evocando que nada foi aprendido e que nada mudará, o que reproduz uma consciência ainda atual envolvendo quem tem condições de fazer uma positiva diferença, porém opta por não fazê-la.

O filme está disponível na Netflix.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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