No período que precede a Páscoa, um coelho passa horas agarrado à grade. É como se estivesse grudado ou fixado nela. Alguém diz que é curiosidade, outro que é vontade de sair.
Por que só ele está ali? Outros não chegam perto. Significa que há um interesse em continuar ali? Afirmar isso como verdade é assumir o interesse do coelho que não significa que seja do coelho.
Alguém decide comprar o coelho com as patas agarradas na grade porque o achou “fofinho demais”. Leva o coelho para casa, o acaricia e o assiste com empolgação.
Transporta o coelho para diferentes espaços para exibi-lo, para que o vejam, para que saibam que agora também divide o dia com um coelho. Fotos com o coelho, fotos do coelho, alegria com o coelho. Tudo com o coelho.
Semanas depois, já não demonstra o mesmo agrado pelo coelho. Acha monótono ter um coelho. A fofura como atribuição do momento, da surpresa, de um contato ainda inédito, é substituída por desinteresse, trivialidade, impercepção.
O coelho foi comprado como não coelho. Mas não é essa a ideia de comprá-lo? Comprar um coelho é comprar o coelho ou o produto que precede e ao mesmo tempo sucede o coelho? Quem é o coelho?
O nome que o coelho ganha desaparece, e com ele desaparece o coelho. O coelho torna-se um desagrado e uma desatenção. Já não quer o coelho. Que culpa tem o coelho?
Um dia, deixa o portão aberto para que o coelho vá embora. O coelho é atropelado não longe dali e morre sem ser socorrido.
Quem vê o corpo, exclama: “Ah! Era apenas um coelho! Coelhos nascem aos montes.” O apenas é usado mais para definir o coelho do que o próprio substantivo coelho.
Então, quem é o coelho? Acham desnecessário removê-lo do chão e o deixam lá. Quem sabe outra pessoa o fará, ou talvez chova, ou talvez nada disso. Ficam com o talvez de qualquer coisa que possa ou não ser.
Tem outro coelho agarrado à grade, como se estivesse grudado ou fixado nela. Não igualmente, mas na semelhança dessa repetição que é uma comercial condição.
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