Enquanto carregavam um caminhão com o rebanho, observou cada animal que nunca mais tocaria uma porção de capim. Viu o sol aquecendo suas cabeças e a maneira diversa de olhar – para baixo, para os lados, para frente.
“São dóceis e vão um a um acompanhando seus companheiros de curta jornada, porque morrer como novilho é ter sua jornada interrompida com idade equivalente à de uma criança que ainda pouco aprendeu a falar.”
Olhou o movimento das patas, posição e postura. Velocidade? Também. Finalidade era a mesma pra todos, mas todos não são o mesmo. Nenhum é. “Tenho certeza disso quando olho para cada um e eles também quando olham uns para os outros. E se digo isso entre humanos, dirão que é loucura, para não comprometerem suas conveniências.”
Desejou que os bovinos perdessem a docilidade e fugissem, mas concluiu que seriam capturados e, se não fossem, ordenariam sacrifício a céu aberto – como já testemunhou outras vezes em suposta ausência de sedação – e definiu como tipo de retaliação.
“E então lamentam o ‘desperdício’, que não seria de vida, e sim de tempo e recursos. Além disso, que reação de reprovação poderíamos esperar de quem financia suas viagens para a sangria? Ó, tenho apreço por suas mortes em local limpo e adequado, mas desprezo que sejam mortos fora do matadouro. Há beleza e benignidade em ser degolado numa planta industrial?”
Com os olhos em direção ao gado silente refletiu sobre expectativa de vida. “Esses vivem menos de 20% do que poderiam. É surpreendente como a vida de um bovino livre da exploração equivale ao tempo de seis vidas que vieram ao mundo para o matadouro. Quando encontro um livre e um subjugado é como se fossem animais diferentes. Não são, é apenas o tratamento que recebem que faz com que pareçam estranhos uns aos outros e a nós.”
Assim que o caminhão partiu, sabia que no dia seguinte o sol não mais aqueceria aquelas cabeças e chegaria pela última vez a tantas outras que terão o mesmo fim. “Enquanto for um desejo da sociedade civilizada…”
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