Em recente entrevista ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Bernard Bett, especialista em doenças infecciosas negligenciadas e emergentes do Instituto Internacional de Pesquisa Pecuária, disse que a invasão de habitats naturais tem intensificado o surgimento de doenças zoonóticas e favorecido pandemias como a covid-19, que se tornou uma doença mais letal do que aquelas desencadeadas por outros tipos de coronavírus.
Ele também cita como exemplo a pecuária intensiva, em que animais são criados em “pequenos e densos ambientes”. “Esses animais que são frequentemente criados nas fazendas têm uma diversidade genética limitada. Populações geneticamente homogêneas são mais suscetíveis a doenças.”
Bett prevê que esse sistema que é uma tendência crescente em um mundo cada vez mais populoso pode trazer consequências ainda mais graves. Ele também aponta que a utilização de áreas protegidas para pastoreio ilegal e caça de animais silvestres coloca humanos e animais domésticos em contato direto com ambientes potencialmente infectados.
“O uso da terra e as mudanças climáticas reduzem a capacidade do ambiente de controlar infecções. Esses fatores desestabilizam a interação patógeno-hospedeiro em ambientes limpos, aumentando a oportunidade de disseminação zoonótica”, diz.
Segundo o especialista, quando os habitats da vida selvagem são degradados ou as pessoas estabelecem seus próprios assentamentos em algumas áreas, elas se tornam parte do ecossistema e do ciclo selvático – o ciclo de transmissão viral que ocorre entre os animais nas florestas.
Bett destaca ainda que a biodiversidade é essencial para preservarmos a saúde das pessoas, dos animais e do meio ambiente.
“Pesquisas mostram que, quando você conserva o meio ambiente e possui várias espécies hospedeiras, o risco geral de transmissão de patógenos é reduzido por meio de algo conhecido como efeito de diluição. Isso ocorre porque, em uma população de hospedeiros mistos, alguns seriam hospedeiros ‘sem saída’, não permitindo a ocorrência de infecções; por isso, conservar a natureza é uma maneira de mitigar a propagação de doenças.”
Bernard Bett frisa que a natureza cuida bem de si mesma, então, a melhor maneira de gerenciar zoonoses é conservá-la e proteger a biodiversidade.
“Uma revisão das tendências globais de doenças infecciosas emergentes desde 1940 confirma que seus surtos têm aumentado com o tempo. Cerca de 60% dessas doenças são zoonóticas e mais de 70% das infecções são causadas por patógenos originários na vida selvagem. Algumas das razões pelas quais elas estão mais frequentes são a crescente aproximação entre animais selvagens e humanos, a invasão de habitats naturais, a urbanização e o desenvolvimento socioeconômico.”
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