Categorias: Pequenas Narrativas

Explorar animais é produzir violências

Ilustração: Jane Lewis

Falou-me do homem que intitula-se como “grande produtor” e orgulha-se de sua riqueza. Não era a voz dele que aumentava quando falava de si como exemplo de produtor “de partes comestíveis de animais”, de leite, ovos, couro, lã e outros mais?

Indaguei-lhe sobre o contrassenso de alguém ser “grande produtor” das coisas que não produz. Como afirmar isso se na realidade não produz? E dai pra lá o seu incômodo seria consequência natural dum apontamento trivial.

Não diga-me que produz o que não produz, porque não sendo partes de sua inerência produtiva, em essência, e não obliterante, onde está a coerência? A carne não é sua porque não vem de seu corpo, e sim de mortífera expropriação, do exercício de violência que antepassa e causa o finamento.

Posso sim concordar com o termo “produtor”, mas de violências; porque é da subjugação, violação e obliteração do corpo que vem a institucionalizada condição. Estende-se ao todo da chamada “produção animal” que coloca o ser humano como protagonista do que não é essencialmente produzido por ele, mas do que impõe a quem produz ou é vítima da chamada “produção” que é sua vida gerada para terminação, assim como o que depende dela.

O animal que come para o próprio fim, não imagina-se assim, mas de sua imposta atividade regular, que compreende o seu estar no mundo, o controle de suas ações biológicas e sua manipulação cíclica, depende a produção. Então quem produz? Não é o animal na insciência do próprio fim?

Exibe brioso a carne, o couro, o leite, os ovos, a lã e os outros mais que nunca produziu, e identificam-te como senhor desses – o “grande produtor”, como diz. Mas de ti não tiram nada. Não tocam-lhe nem ameaçam-lhe a materialidade que dos outros é arrancada ou violada sem vênia, e porque, doutra maneira, nunca a teria.

Errado seria dizer que o “grande produtor” é o violador do verdadeiro produtor? Aquele que nada deseja produzir para nós. Como ignorar que tal produção é inexequibilidade, ou seja, impraticável, sem a dominação animal? Sem fustigação comportamental e acúmulos de condicionamentos que levam da criatura não humana parte do que se é sem poder ser.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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