Inspirado em Dostoiévski, “Au Hasard Balthazar”, que no Brasil recebeu o nome “A Grande Testemunha”, é um filme minimalista do francês Robert Bresson que tem como personagem principal o burro Balthazar, que é submetido à exploração e torna-se testemunha de um universo de mazelas humanas. O mal que atinge Balthazar só é mal pela naturalização desse mal, e que faz parte de um universo de males legitimados e ilegitimados.
Ainda pequeno, Balthazar é submetido por crianças a um batismo, e é também nessa “contravenção” em um cenário cristão que ele é preparado para “assumir o seu lugar” como alvo de exploração, porque se Balthazar vive, ele só pode viver pelo que pode oferecer. Se pequeno, ele compartilha a infância com as crianças, que não reconhecem nele o imperativo da instrumentalização, isso desaparece com o tempo.
Os agrados e as carícias que Balthazar recebia são substituídas pela sela, pela ferradura, pelo chicote e pelas dores diárias da imposição. A relação pueril com as crianças já não existe, e para os adultos Balthazar é um meio. Usam-no para puxar o arado, arrastar troncos, puxar carroças e charretes. Os anos passam e Balthazar raramente é chamado pelo nome.
Bresson explora o paradoxo da secundarização do animal que na história é o personagem mais constante. Tudo se dá na presença de Balthazar, com seus olhos atentos e compassivamente urgentes, porque a vida é o que ocorre com o testemunho de Balthazar – numa exclusão que ao mesmo tempo não pode livrar-se dele, porque o seu lugar de exclusão é também de condicionada inclusão pelo que é subjugação.
A idade de Balthazar avança e o peso imposto a ele aumenta. Nesse ponto, Bresson evoca materialmente que a idade do animal o afasta ainda mais do seu reconhecimento como animal. Então a exploração assume formas ainda mais intensas. Balthazar é colocado na condição de máquina que não pode ser, o que remete à coisificação fortalecida por Descartes.
Em uma das cenas, a carroça puxada por Balthazar quase o atropela. Ele livra-se dela, num ato de prevalecimento em que o humano e sua carga vão ao chão. Ele ignora o interesse humano e afasta-se para comer capim e é perseguido por um grupo. Se o mundo humano é o que determina o lugar de Balthazar, isso não significa que ele o aceita incondicionalmente.
Quando ele foge, ouve-se o som das correntes em seu corpo, porque sua resistência não é o triunfo de sua liberdade. Balthazar refugia-se em uma propriedade, onde quando ainda pequeno não era explorado. Seu lamento é ouvido e logo depois vemos Balthazar puxando uma charrete. Bresson remete à memória animal e sua relação com um tempo que já não existe. O lugar da não exploração desapareceu. Para o burro, já não há refúgio. Há uma uniformidade sobre como ele é visto por todos, e nenhuma delas o livra da instrumentalização, porque as crianças também cresceram e aceitaram o mundo do não humano como o mundo do condicionamento à vontade humana.
Chicotear, chutar ou esmurrar Balthazar não gera incômodo em ninguém, mesmo quando ele é alvo de estranhos. Bresson expõe a brutalidade como inerente à normalidade, porque o ato de ser bruto com o animal é possível pelo que se entende, pelo homocentrismo, como o mundo comum do animal. O burro também é alvo de violência quando a violência não é sobre ele, mas na impossibilidade do que é ferir outro, que não o burro, ou do que é irrealização sobre algo, Balthazar é atingido pelo que não consegue evitar.
Em uma das cenas, um professor diz que o “burro é antiquado e faz com que pareçam ridículos. Ridículo é uma coisa que devemos evitar a todo custo.” O ridículo é associado ao papel do burro como “criatura de uso”, porque é pela ideia de sua “utilidade” que o personagem constrói sua percepção sobre Balthazar – sua figura tornada incômoda em relação às transformações sociais, o avanço da industrialização. Logo o que é ridículo não é o burro, e sim o lugar imposto ao burro.
A história é conduzida pelo “destino” de Balthazar, que quando já não o querem o negociam, enviando-o para outro lugar de exploração, mas retornando ao lugar de infância quando “cansam” dele – impondo a Balthazar uma inversão, como se o mal não viesse de sua subjugação, e sim de sua fragilizada ou “inadequada” condição, numa dissimulação em relação à exploração. Após ser submetido a um violento entregador de uma padaria, o que tem efeito cumulativo em relação a tudo que lhe é imposto, Balthazar adoece e, sem exercer atividade de interesse humano por dois meses, decidem sacrificá-lo com uma marreta.
A cena remete à realidade comum de que o animal só pode viver pelo que pode oferecer. Ele é resgatado, convalesce, mas continua sendo submetido à exploração. Um dia, ao ser mais uma vez agredido, ele foge e é capturado por um circo. Surge então um dos momentos em que Bresson evoca uma comunicação entre explorados a partir do senso de percepção de Balthazar, sua autoconsciência e capacidade de julgar a realidade – sua reação e troca de olhares com um urso lamentoso, um macaco acorrentado e um elefante acuado, criaturas impossibilitadas de transformar suas próprias realidades.
Balthazar é testemunha e objeto (pelo não reconhecimento humano como sujeito) de chegadas e partidas e, ainda assim, não pode livrar-se definitivamente de sua condição servil. Nem na delegacia, Balthazar é considerado. Enviam-no para o dono de um moinho, que passa o dia chicoteando o chão para assustar o burro quando ele para por um segundo. Um veterinário diz que “ele está macucado e que precisa de arreios adequados.” A resposta do homem é que “não há necessidade. Livro-me dele quando a chuva chegar.” Ou seja, nem a exploração justifica a continuidade de sua vida. O burro é excluído porque a “manutenção de sua vida é mau investimento”.
O comportamento humano e a maldade humana assumem expressão simbólica quando Marie, a menina que conheceu Balthazar na infância, diz ao dono do moinho: “É tão feio aqui. Este é um lugar para morrer.” É como se a morte determinada pelo homem em relação ao burro só fosse possível pelo que já é morte dentro dele (humano). Bresson também relaciona exploração humana e não humana quando o homem diz que “acredita somente no que possui. Adoro o dinheiro. Pagar pessoas te liberta de quaisquer obrigações. Melhor ainda, faça-as trabalhar por nada.” Ele diz isso algum tempo depois de remover a ração de Balthazar antes que ele tivesse terminado de comer. A história nunca deixa de ser conduzida pelas negociações que envolvem Balthazar, na sua condição de mercadoria viva.
Quando Marie diz que não “tem mais ternura, coração e sentimentos”, sua relação com o burro, que sempre retorna ao lugar de infância, já era como um vazio. Ninguém salva Balthazar na história, porque não creem que ele deve ser salvo. Quando perde a filha Marie, que foge, e o marido que morre após a fuga da filha, a mãe diz que o burro “é tudo que ela tem e que ele já é velho e trabalhou o suficiente”. Porém não impede que ele seja levado, porque o burro é simbólico de uma vida que para ela já não existe, e quando existiu não era a vida do burro, mas a vida que “pesou” sobre o burro.
Assim como no começo do filme, Balthazar, já envelhecido, retorna ao contexto da simbologia cristã, quando é usado, já fragilizado, para transportar uma estátua em uma procissão. A estátua eleva-se sobre Balthazar, que não pode reclamar. A imagem remete ao lugar dos animais na moral cristã ocidental. Uma ação de renovação da fé que desconsidera quem é usado para a condução dos símbolos de fé.
Enquanto tantos personagens desaparecem do filme, numa madrugada Balthazar é levado por alguns garotos para transportar contrabando. São interceptados pela alfândega em um morro, fogem e abandonam o burro que é alvejado. Não há libertação para Balthazar, a não ser com a morte. Ele tenta não morrer, mas não tem para onde ir. O lugar de Balthazar nesse universo de violência humana é onde ele está – no “seu não lugar”.
De longe, ele observa um pastor que usa cães para submeter ovelhas. A cena remete à vida de Balthazar, com a diferença de que humanos condicionam outros humanos a fazê-lo. As ovelhas circulam Balthazar, que pela primeira vez na história aparece sentado. Apenas a proximidade com a morte permite essa posição. As ovelhas afastam-se e depois aproximam-se dele. Na realidade cotidiana dos personagens, Balthazar nunca esteve no centro, mas como “criatura de lado”, por sua posição não central nem mesmo em relação ao que era possível sobre a sua vida. No momento de sua morte, ele é rodeado por ovelhas, assim como um dia foi rodeado por crianças.
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Muito boa sua análise! Vejo muita compaixão de sua parte ao constatar , de forma realista, o que acontece com os animais no mundo do que chamanos de pessoas. Sua conclusão não foi expressa , porque não que não precisaria.Os animais mereceriam melhor tratamento. Complemento: as pessoas também, pois a maioria é vista também como " burro de carga" .
Glória, muito obrigado. Fico grato pelo seu feedback.