“A Cor da Romã” é um filme do georgiano-armênio Sergei Parajanov em que chama atenção o lugar de violência ritual dos animais não humanos no cristianismo. A obra é baseada no poeta georgiano-armênio Sayat-Nova que viveu e morreu em um monastério no século 18.
Com poucos diálogos e uma estética incomum, Parajanov explora expressionismo romântico e profusão religiosa em um contexto em que o matagh, o “sacrifício ritual” de animais, é constante do início ao fim, e permite relação com o lamento inicial do poeta-narrador que define “vida e alma como um tormento”.
O “sacrifício ritual” dos animais assume forma de gratidão ou desejo. Ou seja, a vida outra, que não é minha, é ofertada por esse mal físico e fatal que não me afeta a carne, e desse mal espero retribuição, e pelo que não vejo como mal.
Logo no começo um peixe debate-se na tentativa de superar a asfixia, mas morre. Sua morte é como não morte, pelo não reconhecimento desse ato como violência, embora arbitrário fim. É como se o peixe estivesse ali pelo que é simbólico como impossibilidade e sufocado pelo que sobre essa vida não humana é imposta normalidade.
Depois um galo é decapitado em uma cerimônia. Então três carneiros são sacrificados e suas cabeças decoradas são expostas como objetos de contemplação. Se a romã no título remete à fertilidade, beleza e sua importância na cultura armênia, a morte dos animais é contraponto sobre o que é desejoso pela violência.
O vermelho é a cor mais marcante no filme, evocando o viver e o morrer, já que marca todas as fases de uma vida – em “A Cor da Romã”, o simbolismo de Sayat-Nova e seu universo religioso. Em nenhum momento o que é imposição aos animais, seja exploração ou morte, remove os animais desse lugar.
Estão ali para tudo que é interesse humano, como seres impossíveis de viver de outra forma. A crença é de que o animal, se vive, vive pelo que como crença não pode ser outra forma de viver.
A morte dos animais marca também o fim da vida humana, quando o protagonista morre pela lâmina e ao redor de seu corpo agitam-se aves degoladas. A experiência subtrai a diferença quando o fim do ser humano é como fim não humano.
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