Categorias: Opinião

Não é estranho que o frango seja mais tocado morto do que vivo?

O frango na gaiola a caminho do matadouro é exemplo da separação humana-não humana, do nós e eles, que serve à ideia do “quem pode impor a quem”. O “eles” que só pode existir para a chegada desse dia em que é enfiado em uma gaiola para uma viagem sem volta.

Já me perguntei muitas vezes quais são as impressões de um frango que observa um mundo entre grades. Seu mundo não pode ser parte de outro mundo, onde a liberdade de circulação possa ser uma justa realidade.

É um mundo diminuto pela brevidade da vida, da privação de experiências, do desejo pelo que tão logo não seja. Nesse exercício, admito que não posso saber como é ser frango, mas sei que ele observa um mundo com o qual não pode interagir.

Imagino se isso significa um estar e ao mesmo tempo um não estar, porque o corpo é confinado, porém quem garante que nessa perspectiva não humana o animal não se vê fora dali? O observar não é também muitas vezes sobre uma ideia de se deslocar por onde o corpo não pode estar?

A própria vontade de não estar ali não é expressão de onde poderia e desejaria estar? Mas é comum também dizer que o frango pouco vive, não reconhecendo nisso o mal, e sim que vivendo tão pouco, pouco pode compreender o que é a vida – como se o viver ou não viver dependesse do ato de compreendê-la. E não é essa afirmação tentar assumir uma consciência outra por um interesse que não é do frango?

E não é estranho que ele seja mais tocado morto do que vivo? Como é estranha essa intimidade em que o animal que observa o mundo a partir da gaiola tem suas partes que descem pela garganta – a intimidade de engolir alguém sem pensar em quem.

O toque humano mais comum em relação ao frango é este, da não vida, do corpo morto que quando vivo percorreu distância desconhecida, e que tudo que observou não desapareceu para outros, mas para ele.

O frango é sujeito que assiste o que e quem não o assiste. Não é da invisibilidade fortalecida por sua condição humanamente desejada de não ser? O frango, não como único, vive o constante e inatural apagamento de experiências, porque tudo que ele vê é para logo não ver. E se olho para um frango que já não existe, posso imaginar onde ele esteve e está.

Leia também: “Frangos e galinhas vivem pouco porque o consumo humano impede que vivam mais“, “Por que quando se fala em gripe aviária a realidade dos frangos é ignorada?“, “Sobre a cliente que ficou horrorizada ao encontrar a cabeça de um frango em um pedido de frango” e “Frangos não são vistos como vítimas de acidente“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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