Categorias: Opinião

Não há nada de esportivo na pesca esportiva

Imagem: G1/RPC

Na TV, apresentadora e repórter exaltaram “o feito” de um rapaz, que tirou um pintado de 1,70m do seu habitat. Ênfase, sorrisos, satisfação (não do pintado) e uma repetida afirmação: “40 minutos de briga!”, em referência ao tempo que o peixe resistiu em ser capturado. Isso foi dito várias vezes num tom de “coisa boa”. Ninguém fez qualquer referência não positiva, que não fosse sobre despertar admiração.

Enquanto o pintado era mantido fora do rio, se asfixiando, agonizando, imagens foram registradas. O pintado importava à medida que não importava, porque não era sobre ele, mas sobre o ego humano. Humanos capturam animais para impressionar humanos, para o próprio enaltecimento em relação à discutível habilidade de perturbar um animal que não deseja ser perturbado.

“Olhe o tamanho!” Ninguém fez observação sobre o incômodo do animal. Para fazê-la, seria preciso olhar para o animal considerando o que quer o animal. E o que poderia querer o animal que resistiu por 40 minutos? Como isso confirma uma harmonia entre o interesse humano e o do peixe?

Uma bióloga disse que no mesmo rio já não há peixes grandes em consequência da pesca, que a eles não é permitido crescer tanto. Mas a afirmação surgiu numa forma de validar e minimizar o impacto pelo ato de “devolver o peixe ao rio”, já que a prática do rapaz, numa afirmação orgulhosa e tratada por todos como positiva, é a pesca esportiva.

E o que existe de esportivo em algo que o peixe não reconhece como esportivo? Há igualdade de interesses entre as partes? E a dor de resistir por 40 minutos sendo penetrado por algo cortante? A reação do animal não muda porque uma pesca é esportiva ou não. E se alguém decidisse asfixiar um ser humano, mas já antecipando que o fará sem matar? Alegando que tem habilidade e experiência para isso. Quantos aceitariam? Seria esportivo?

Leia também “Peixe também é carne“, “Por que subestimar o sofrimento dos peixes?” ,”O que reflete a boca aberta de um peixe morto?” e “Um peixe tenta escapar da morte por asfixia

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Para muitas pessoas peixes não sentem nada, são de plástico e Deus fez exatamente para serem comidos por nós...
    É tão bizarro ignorar a dor de outro ser.

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