Galinha poedeira não sabe o que é correr. Se mexe “muito” as asas enrosca na grade. Não tem muito o que ver. Só sai dali pra morrer. Viver é como repetir movimentos sobre uma folha de sulfite. Não tem espaço, mas tem diferença – sulfite é mais macio.
Todo mundo igual no mesmo aperto. Só na aparência, porque cada bicho é cada bicho. Arame sujo – pra cima, pra baixo. Quem limpa? “Pra quê?” Peninhas entre as grades, pedaços de casca. O que importa é botar ovo. Sem ovo sem vida. Mas que vida?
E quando vem a inquietude? Estranhamento? Por isso tem bico mutilado. “É proteção de investimento.” Já tem gente calculando prejuízo “de baixa” na gaiola. “Tem que amontoar, amontoar. Sempre dá.”
Galinha de granja faz menos barulho. “É bicho menos explícito.” Se está sofrendo é mais fácil ignorar ou dissimular. “Bicho mais calado é bom.” Faz de conta que é outra coisa. “Não é dor, nunca é.”
Olhares atravessam pela cadeia de arame. Se fala em sentimento, dizem que é erro, falta de entendimento. Sim, já tem morte nos cantos. Às vezes, demoram pra recolher. “Pelo menos é galinha meio velha.” Outras já não reagem – parte da rotina.
“Prejuízo agora é não poder abater. Daria mais alguma coisa.” Bichinha fica no escuro. Já é tarde e deixam pra descartar pela manhã. Todo mundo continua ali, entre vivos e mortos, um esparramado de dejetos e cheiro estranho de farelo.
Gaiola nunca esvazia. Uma morte é uma chegada – substituição instantânea. Um ano e meio é a expectativa. Até lá a rotina é botar. Então é só vender pra pendurar e degolar, porque onde tem ovo tem carne de galinha.
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