No romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, há um momento em que o bando integrado por Riobaldo come um homem confundido com bugio. A cegueira pela carne fez com que destrinchassem, quarteassem e comessem um humano como se fosse outro animal. Ou seja, sem sabê-lo humano.
“Provei. Diadorim não chegou a provar. Por quanto – juro ao senhor – enquanto estavam ainda mais assando, e manducando, se soube, o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era homem humano, morador, um chamado José dos Alves!”, narra Riobaldo (2019, p. 46).
A situação parece absurda. Desperta um mal-estar em relação à carne, já não importando procedência. Como destrinchar, quartear e comer um humano sem vê-lo humano? O humano não apareceu para eles em bifes ou fatias, facilmente confundíveis. Eles estavam em busca de caça, e na ausência do que desejavam, mataram e comeram o que não desejaram como se tivesse se transformado no que desejavam.
“Mãe dele veio de aviso, chorando e explicando: era criaturo de Deus, que nú por falta de roupa…Isto é, tanto não, pois ela mesma ainda estava vestida com uns trapos; mas o filho também escapulia assim pelos matos, por da cabeça prejudicado. […] Não se achou graça. Não mais não comeram, não puderam” (2019, p. 46).
Nesse momento, os homens passam mal por rejeição à carne ao comerem carne. Não querem a carne – reconhecem nela a semelhança, como um comer a si mesmo; o incômodo disso tudo e talvez mais na boca.
O que é relatado por Riobaldo permite pensar na materialidade da violência contida na carne e como o desejo pela carne se transfigura noutro mal, irrefletido, indesejado e gestado no caótico. Mas o que é a carne senão violência e morte?
O desejo pela carne é levado ao extremo. Carne é carne, pode-se dizer, na anulação pelo bizarro infortúnio e acaso, da diferença entre humanos e não humanos. E se toda carne é assassinato, é corpo irreversivelmente derrubado.
A narrativa envolve o leitor na rejeição à carne que surge como surpresa, porque a ideia de carne humana também afeta o que é sobre a carne não humana, mesmo que momentaneamente – se são interesses sobre o que colocar na boca, e do que depende esse interesse.
Quem desejaria a carne não humana após comer, sem querer, uma carne mais comumente pensada como se fosse a própria? A carne humana aproxima o ser humano do que é real sobre suas arbitrariedades alimentares.
Come-se um na crença de comer outro, mas mesmo esse um não deixa de se constituir na semelhança com o que se busca (o outro). Logo come-se o humano pelo que nele não difere do que é não humano, a carne.
A carne é o que temos e também somos, mesmo quando não vemos e olhamos para os outros (não humanos) como se isso fosse somente sobre eles. O canibalismo, mesmo indesejado, evoca essa realidade do que, pelo costume, não vemos porque não queremos e, portanto, não reconhecemos.
Referência
ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. 22. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 560 p.
Leia também “Em ‘Sob a Pele’, humanos vivem realidade de outros animais no matadouro“, “Búfalos Selvagens: ‘Fome por carne nos imputa como carnívoros quando somos assassinos‘”, “Se nossa carne também tem proteína, deveríamos ser reduzidos a alimentos?“, “E se fôssemos reduzidos a pedaços de carne?“, “E se fosse anulada a diferença entre carne humana e não humana?” e “Agustina Bazterrica coloca humanos no lugar de outros animais em ‘Saboroso Cadáver‘”
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Tentei ler esse clássico literário brasileiro anos atrás, mas não consegui concluir a leitura. Tenho um motivo a mais para tentar agora novamente. E, acredito eu, que além desse trecho do comer a carne humana, existam outras passagens em que as relações do bicho-homem com os outros animais são também sublinhadas por violências, concretas e simbólicas, por causa do contexto temporal, cultural e geográfico da narrativa.
Grato pelo texto, David!