“Lamb”, do islandês Valdimar Jóhannsson, é um filme de ficção que favorece uma reflexão sobre o especismo. Enquanto ovinos são criados em uma propriedade familiar para fins econômicos, com cordeiros sendo submetidos a mutilações e cortes, debatendo-se e sangrando, um dia nasce na propriedade uma criatura com cabeça de cordeiro e corpo humano.
Emerge uma consideração por essa vida que tem partes humanas, e que tornam-se justificativa não apenas para um outro olhar como também para um outro tratamento. Ter mais partes humanas do que ovinas atribui ao híbrido o direito de situar-se não como alvo do antropocentrismo, mas alguém que, diferente dos outros, pode ser beneficiado pelo que exclui os demais.
Então não é a fronteira entre o humano e o não humano que beneficia o animal que é tratado na sua dignidade, como a criança que é, mas a ideia de que ele está do lado de cá, não do lado de lá na divisão estabelecida pela máquina antropocêntrica que define quem deve ser quem e que tipo de direito isso deve assegurar com base no interesse humano.
A ovelha, privada da filha, é a maior expressão no filme da rejeição ao que é não humano, e que por sê-lo, é mero meio de espoliação. Seus lamentos diante da casa, reivindicando a filha que não pode ter, porque um casal humano a toma como sua, culminam no seu silenciamento, na voz que, se a ovelha tem, é algo que não deveria ter.
Morta a céu aberto, no campo, com um tiro em um dos olhos, que remete também à percepção não humana sobre ver o que não deveria ver, a ovelha é enterrada e coberta não apenas com terra, mas com a cólera e o domínio humano – a intolerância à ideia de que um animal que saiu doutro animal, não pode ser desse animal, nem estabelecer relação com esse animal.
A criança que vive só é criança pelo que nela é forma humana. E protegê-la é uma manifestação de anulação do que não é humano, de contraditória reivindicação de uma totalidade em um corpo do qual não podem aniquilar o que é não humano. E sobre isso, “Lamb”, rompe as hierarquias do domínio humano ao evocar a igualdade pela violência representativa da compensação.
Em um momento do filme, o cunhado do casal de fazendeiros decide matar Ada, por ver nela, primeiro, uma predominância ovina, mas desiste pelo que nela é expressão humana. Ou seja, o fim do animal é justificável pelo que nele é não humano? A empatia deve ser um exercício sobre o que no outro só pode ser reconhecido, se reconhecido, como inerentemente humano?
A simpatia por Ada, o agrado por Ada, seriam esvaziados se em Ada não houvesse nada percebido como se humano por imanência. Ada é amada pela distância que o casal estabelece entre ela e os ovinos, afastada não pela natureza, e sim pela crença, ainda que seja uma impossibilidade Ada desconectar-se do que em si é também condição ovina.
Ada não pode conviver com outros animais não humanos, a não ser com o cão pastor. Então Ada é elevada pelos humanos em relação ao cachorro pelo que nela é humano. “Lamb” expõe também o esforço humano de extração e homogeneização da animalidade.
Ada é criada somente para fazer o que é humano. É distanciada de tudo que não é humano. Apenas o casal pode ter contato com outros ovinos e, mesmo nesse exercício diário de instrumentalização dos demais, o contato com eles é reduzido, o que evoca a uma outra secundarização ovina, pela pretensão de uma nova realidade.
O amor por Ada cresce à medida em que ela desenvolve seu comportamento humano. E que amor seria concedido a Ada na ausência do que é determinado nesse contexto como característica humana? Ada seria somente mais um animal não humano reduzido a um meio de consumo, assim como sua mãe, morta por rejeitar a privação materna.
O que é o especismo?
A crença de que por nos considerarmos superiores aos outros animais podemos usá-los de acordo com nossos interesses.
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