Quando Nietzsche reagiu à violência contra um cavalo

 

Em “O Cavalo de Turim”, mal que se abate sobre o cavalo principia o fim de tudo que é conhecido como vida (Imagens: Katerina Rss/O Cavalo de Turim)

 

“O Cavalo de Turim”, do húngaro Béla Tarr, é um filme que tem como ponto de partida um episódio em que Nietzsche, ao testemunhar um carroceiro chicoteando o próprio cavalo em Turim em 3 de janeiro de 1889, coloca um fim na atitude do homem ao saltar sobre a carroça e envolver o cavalo com os seus braços.

O filme não mostra a violência. A narração desse momento é acompanhada por uma imagem preta, que pode levar a uma conclusão de pesar e a um luto por quem ainda não morreu. Tarr dá continuidade a essa história, com uma narrativa de poucos diálogos, valendo-se da ficção para contar o que houve após aquele dia. O filme parte do inverso da crença cristã sobre a criação do mundo para apresentar o fim de tudo que é vida em seis dias.

“O Cavalo de Turim” permite refletir sobre a exploração animal, porque é o mal que se abate sobre o cavalo que principia o fim de tudo que é conhecido como vida. O filme evoca a natureza como tudo que vive, animais humanos, não humanos e plantas, e abalar essa relação pelo que é arbitrário, é querer acelerar ou causar o fim dessa relação. Não somos feitos de uma separação.

O carroceiro vive em um lugarejo rural com sua filha, e sua rotina é sua liturgia da repetição. No dia seguinte ao açoite público do animal, ele se prepara para o trabalho com a ajuda da filha, mas no momento em que o cavalo é preso à carroça, o animal recusa-se a dar um passo. O homem fica irritado e agita as rédeas que pressionam o couro do animal que não se move. A filha o adverte para que ele pare, para que não seja cruel com o cavalo.

O cavalo não é mais submisso. O carroceiro consente e desiste. Liberta o animal da carroça e volta para dentro de casa, onde mau tempo e adversidades são marcados pela proximidade com o fim. Ele espera que o cavalo ainda seja um fim na carroça. O cavalo não deseja mais comer. Também não quer mais beber. A relação do cavalo passa a ser com a morte.

E sua proximidade com a morte torna-se a proximidade de todos com a morte. O mau tempo piora, os dias têm pouca distinção com as noites, as tempestades tornam-se mais frequentes. Já não há mais água, somente pedras no fundo do poço. A lenta cotidianidade reproduz a miséria dessa realidade em que há muita escuridão e esparsa luz. Sem a vida do cavalo, o que é vida, o que pode persistir como vida?

Os movimentos humanos tão repetidos, a indiferença e o deslocamento do cavalo em relação a esse mundo humano. É estabelecida uma separação, não pelo desejo, pela consequência que arrebata o cavalo. Desistem do lugar, e quando fazem isso, reúnem o que podem em uma carroça menor, de propulsão humana.

O cavalo é atado à que é puxada pela filha que, embora humana, também atua ao longo de seis dias como mediadora entre o humano (o pai) e o não humano (o cavalo), evitando que o anseio pela servilidade não reproduza mais barbárie.

A moça contra o vento, puxando o que sobrou de suas vidas, assume a forma da força que pouco resta. O fim já é inevitável. É tarde demais. Não encontram mais ninguém quando abrigam-se em uma casa de pedra e não vemos mais o cavalo. O animal morrerá e, na sua imposta ausência, ninguém viverá.

“O Cavalo de Turim” é mais do que o breve episódio sobre Nietzsche, é sobre a interpretação das correlações que surgem a partir dessa experiência. O filme permite perguntar-se o que é a vida que já não pode ser saudável e que é punida pelo que já não é possível na eficiência imperativa de ser servil.

O animal, se fraqueja, é pelo que nele foi imperado diariamente como fraqueza – a intensidade de um processo que leva ao esgotamento, ao adiantado envelhecimento. Matamos o animal e matamos a nós mesmos. A metáfora no filme assume também a forma da literalidade.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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