Leite deixa um gosto estranho, um gosto que posso dizer que não é de leite, mas que vem do leite. E sendo do leite, então não é o gosto do leite? É gosto de vaca, de bezerro, de quem vive e de quem morreu.
Não sou bezerro. Por que a vaca me daria seu leite? Um dar que nunca é dar. E vive para o leite. Não por escolha, por ausência dela. Gestar, lactar, um intervalo para outro gestar. Deve continuar a lactar.
Mortes vão acontecendo, mas não é acontecimento, é fato comum, sem estranheza. Quem é gerado vai primeiro, quem gerou vai depois. Sexo errado. Se certo, é a filha que substitui a mãe nesse ciclo interminável.
De repente, que nunca é de repente, o vigor vai embora pra não voltar. Sente-se cansada e deita no chão de concreto. Escorre a última sobra de leite. Sobra? Mistura-se com urina e fezes.
Forma caminho sinuoso. Pata já não toca o chão.
“Não funciona mais”
“Enfermidade ou doença?”
“Não compensa”
Corpo cansado sobre o concreto desaparece.
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