Em um de seus vários relatos sobre suas experiências em matadouros, e que dariam origem ao ensaio “O Primeiro Passo”, de 1892, o escritor russo Liev Tolstói escreveu que uma vez, quando observava um rebanho, ele notou que o primeiro animal se destacava pela beleza, robustez e cor alva com manchas e extremidades pretas.
“Um jovem animal musculoso e enérgico. Quando tiraram a corda, ele abaixou a cabeça e se deteve com decisão. Mas o açougueiro marchava atrás, pegou a cauda e a torceu; rangeram as vértebras. O boi lançou os que prendiam a corda, jogando-os contra o chão, e se deteve de novo olhando para os lados com seus olhos negros cheios de fogo”, relatou.
Sua cauda foi violentada mais uma vez, e ele avançou. Quando chegou onde queria, o açougueiro se aproximou, apontou e o golpeou. O mau golpe não fez o boi ceder. Ele agitou com força a cabeça, mugiu e, sangrento e furioso, soltou-se e inclinou-se.
Segundo Tolstói, quem estava perto da porta, fugiu. Acostumados com o perigo, os açougueiros pegaram a corda e mais uma vez puxaram a cauda do animal. Depois de enganar o boi, fizeram com que ficasse exatamente onde queriam. E de lá, ele não poderia escapar. Um dos açougueiros golpeou o belo animal que, cheio de vida, moveu a cabeça e as pernas enquanto o degolavam e o esfolavam.
Quando o boi não caiu onde o açougueiro queria, ele gritou: “Maldito diabo!”, e cortou a pele da cabeça do animal. Cinco minutos depois, a cabeça preta estava vermelha e aqueles olhos, que cinco minutos antes brilhavam com tanta força, estavam vítreos e apagados.
Depois, Tolstói foi ao matadouro de ovelhas, um grande prédio com pavimento asfaltado. Ele viu mesas com apoios, e sobre elas as ovelhas e os bezerros eram degolados. Naquele local com forte odor de sangue, o trabalho tinha terminado e havia somente dois açougueiros.
“Um deles soprava a perna de uma ovelha morta e esfregava com a mão o ventre inchado do animal. O outro, que era moço e levava o avental cheio de sangue, fumava um cigarro. Seguiu-me um homem que parecia um antigo soldado. Levava um cordeiro de um dia, preto, com uma mancha no pescoço e as patas amarradas, e o pôs sobre a mesa”, relatou o escritor russo.
O cordeiro continuava imóvel como a ovelha morta e inchada enquanto eles cumprimentavam-se e conversavam. De acordo com Tolstói, a única diferença era que o animal movia a pequena cauda e ocasionalmente as laterais, com celeridade.
“O soldado, sem fazer esforço, apoiou a cabeça do pequeno animal na mesa, e o açougueiro, sem parar de falar, segurou com a mão esquerda a cabeça do cordeiro e cortou-lhe o pescoço. A vítima agitou-se, a cauda ficou rígida e parou de se mover. Enquanto o sangue descia, o açougueiro acendeu o cigarro”, testemunhou.
Tolstói se surpreendeu com a tranquilidade daqueles homens. Quando o sangue parou de escorrer, o cordeiro se agitou de novo e a conversa prosseguiu sem cessar nem por um segundo.
Referência
Tolstói, Liev. O Primeiro Passo (1892).
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Sem comentários...e pensar que essas atrocidades continuam a acontecer...Até quando???