Será que quantas mães não humanas são exploradas e mortas no Dia das Mães? Difícil dizer, mas não tenho dúvida de que nos surpreenderíamos com o total. Afinal, exploramos dezenas de bilhões de animais com finalidade de consumo por ano – citando apenas as espécies terrestres.
Somente porcas, vacas e aves somam bilhões por ano e acabam por ter um “destino” bastante cruel, já que além de muitas fêmeas serem criadas e utilizadas como meio de reprodução, seus “papéis” são reavaliados quando deixam de ser tão vantajosas para o mercado.
No caso das porcas, a exploração comercial do “cio” do animal, que já nasce com seus anseios naturais e sociais suprimidos pela agropecuária, começa com seis ou sete meses. No entanto, em confinamento, a puberdade pode ser acelerada até um mês antes.
Depois que a porca se reproduz, o convívio com o filhote não ultrapassa as primeiras três semanas, quando o leitão é enviado para abate em idade equivalente a de um bebê. O mesmo destino recebe a porca quando deixa de ser considerada “uma boa matriz”.
Além disso, não são apenas mães humanas que correm o risco de sofrer de síndrome pós-parto. Porcas criadas para consumo estão sujeitas aos mesmos tipos de transtornos psicológicos e depressão sofridos pelas mulheres. O que favorece isso é a condição em que vivem aliada às alterações hormonais quando estão prestes a dar à luz.
O que pode intensificar esse quadro é a incomunicabilidade diante da realidade em que vivem. Quando os leitões são afastados das porcas, a situação se agrava ainda mais. Até porque muitas porcas vivem a maior parte da vida em confinamento, e como são seres sociais, ficam impossibilitadas de reagirem de acordo com a própria natureza.
Em relação às galinhas, a realidade também exige reflexão. Uma galinha selvagem bota 10 a 15 ovos por ano, mas podendo chegar a 30 no período natural de reprodução. Por outro lado, as galinhas modernas, que produzem os ovos mais consumidos em todo o mundo, passaram por manipulação genética para botarem até 350 ovos por ano.
E claro, como efeito colateral da indústria de ovos, até sete bilhões de pintinhos são mortos por ano, segundo publicação da BBC, já que os machos são considerados descartáveis e não chegam a conviver com suas mães.
A produção de ovos é muito exaustiva porque o ovo requer muitos nutrientes, especialmente o cálcio que é um importante nutriente da casca. Para cada casca de ovo produzida, uma quantidade considerável de cálcio é drenada do corpo de uma galinha.
Por isso, as galinhas poedeiras sofrem de osteoporose, e têm ossos bem frágeis se comparados aos das galinhas selvagens. Também sofrem de prolapso uterino, câncer de ovário, peritonite, esteatose (síndrome do fígado gorduroso) e fadiga crônica. Uma galinha pode viver por pelo menos dez anos, mas no sistema industrial a sua expectativa de vida é de um a dois anos.
Dizem que amamentar o próprio filho faz uma mãe perder até 700 calorias. Agora imagine o impacto que isso tem no corpo de uma vaca condicionada a “amamentar” uma legião de seres humanos, animais que não são seus filhos.
Dependendo do sistema, uma vaca pode ser ordenhada até quatro vezes por dia, e há sistemas no contexto industrial em que a meta é obter 12,5 quilos de leite nos primeiros quatro minutos de ordenha efetiva.
Considere o impacto disso na saúde de uma vaca no que diz respeito à perda de glicogênio, de energia. Afinal, não há ordenha sem subtração de energia de um animal, e quanto mais intensa maior impacto terá sobre a vida da vaca.
Além da vaca ser separada precocemente do bezerro, considerado descartável pela indústria de laticínios, mais cedo ou mais tarde ela será enviada ao matadouro e reduzida a pedaços de carne. A justificativa mais comum é a queda na produção leiteira associada à exaustão animal.
Em síntese, enquanto celebramos o Dia das Mães humanas, viramos as costas para bilhões de mães de outras espécies que neste momento vivem a realidade de uma exploração que se volta para hábitos de consumo substituíveis.
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