Tantos números marcados nos corpos dos animais. São cicatrizes que jamais se apagarão – nem com suas mortes.
“Escolha dos ‘instrumentos’ só leva em conta eficiência e menor custo – sem anestesia ou alívio para dor. Talvez haja medonho prazer nessa violação. E devo duvidar que não? A realidade está para os nossos olhos. E se não houver, o que dizer sobre desconsideração?”
Com a marcação, vem a confirmação de posse, de controle sobre vidas. Pai, mãe, filho ou filha? Para quem os cria, não importa neste contexto o conceito de família.
“São produtos gerados por uns e por outros, sem possibilidade de construção de laços, de conjugação social. E a separação é acelerada pela vantagem econômica. Mais cedo, mais tarde, depende do preço, da vontade.”
Quando colocaram o pé na cabeça dum e amarraram-lhe as pernas, o coitado saltou olhos, tremeu, gemeu e urrou tão alto que podia-se ouvir da estrada. Ferro em brasa contra o couro – pressionado com tanta força. Bicho desmaiou e ficou febril. A dor encheu-lhe dum trauma e aversão por bípedes. Não podia mais vê-los sem sentir terror.
Era só um número no rebanho – que também chamaram de “adição”. “Confirmação de que tem dono e deve servir na vida e na morte.” Virou número e para onde fosse era o que viam. Não tinha nome. Na fase de terminação, tornou-se número gordo, maior, com pontas grossas e linhas mais atrativas à violência.
Já pensavam no lucro chegando e nas lâminas cortando aquele número que sangra, e o sangue virando farinha pra alimentar outros bichos. “Que alegria vem da barbárie da sangria.”
Assim que arrancaram-lhe o couro, vendido para um curtume, alguém segurou aquele pedaço numerado. Ganhou muitos outros números, para cada parte – em saquinhos, bandejas, latas, embalagens a vácuo e outros mais.
Quando morre, o número cresce, ganha extensão, variação. É a multiplicidade da miséria individual que também é coletiva. E onde estará aquele animal? “No maior número possível de lugares que você pode ou não imaginar. E você quer?”
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