Quantas mortes carrego dentro de mim se alimento-me de morte? Entram pela boca, descem pela garganta, percorrem meu organismo e dele exigem trabalho.
A morte representada por partes de um corpo sem vida pode trazer tantos significados, porque cada um, na sua distinção originária, é uma história ignorada.
Posso inferir condições de vida, brevidades, situacionismos, vontades desassistidas. Ideias variam no oscilar das possibilidades. A porção que mastigo é sobre qual-idade? Quanto sangue derramado?
Qual pequeno percentual de uma expectativa de vida? Não é difícil transitar pelo açougue e reconhecer efemeridades. Poderia chamá-lo de creche, porque quase tudo ali é sobre animais que não podem envelhecer, que precisam morrer jovens, bem jovens.
Dias, meses e primeiros anos, frangos, suínos e bovinos (por que parar aí?), resumem-se a cortes e recortes. Posso engolir partes de pouca idade (e quando não são?), sem reconhecer números que não envolvem preço ou peso. De onde vêm? Isso importa?
Então comemos os animais que não vemos, e se vemos não reconhecemos. Continuo pensando na morte, e em como andamos por tantos lugares carregando-a dentro de nós – depois do almoço, de um lanche, do jantar.
Se repete-se no cotidiano, como dizer que a morte vai embora? É como se vivesse dentro de mim, em estranha multiplicidade, indo e vindo, mudando de forma, textura e cor, em porções menores ou maiores, desfazendo-se, transformando-se.
Que tal eu dizer que vai embora apenas para voltar logo depois? É uma maneira de ver, porque não é a mesma, mas como se fosse, se minha alimentação é uma continuidade da ingestão de partes subtraídas de corpos há não muito vivos.
Eu ainda poderia imaginar a procedência da carne, não a empresa ou a propriedade, e sim o corpo do qual fragmentou-se por golpes de lâmina. Então poderia perguntar: “Quem era a minha carne que não é minha?”
E talvez não desejasse resposta, e me perdesse no conforto das possibilidades, que também é desconforto de impossibilidades.
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