A cada 15 dias, buscar ovo na granja era sagrado. Esperava vez assistindo quem chegava e quem partia (Fotos: Pixabay/iStock)

A cada 15 dias, buscar ovo na granja era sagrado. Esperava a vez assistindo quem chegava e quem partia. Meia caixa das grandes. Galinha selvagem poderia nascer e morrer sem nunca sonhar em botar tanto. Ah, deve doer, e drena o cálcio da bichinha.

Um homem gritava: “Só quero uma!” E sorria pra mulher dentro do carro. Tadinha veio com pés amarrados, cabecinha tentando reconhecer coisa, e os olhos, parecendo pedacinho de sol, vagando daqui pra li, de lá pra cá.

Enfiaram num saco e apertaram a boca – agonizava no silêncio do desconhecimento. Dava nem pra saber a última lembrança da bichinha. Bege estopado do saco? Pode ser. No porta-malas, fazia barulhinho débil, mas doído.

Batida seca, coquinho craniano. Ah, deve doer também. Ninguém estranhava. “Normal”. Diziam que o último bafinho condenava quem matava. Ninguém ligava. A cena se repetia. Um, dois, três, quatro, cinco, por aí. Todo dia a morte batia.

Carninha branca, era o que viam – comiam. Davam de lamber beiços ali. “No molho, né? Uma delícia!” “Ainda tá com idade boa pra fritar também.” “Como sozinho em menos de dez minutos.” “Gosto da pelinha tostadinha.” Que vidinha!

“Se já não serve pra botar, cai na panela – é o prazo de validade. O dono tá no direito.” Ovinhos a menos, degola pra mais. Presente, ainda é. Parece que não muda. Um e outro disputavam quem matava mais rápido em casa. Dinheiro na jogada.

Aceleravam. As bichinhas indo de um lado pro outro no porta-malas. Pra não perder, sujeito desceu do carro numa tarde, abriu porta-malas e degolou tadinha. O sangue descia – cabecinha mole, hemorragia – morte.

“Ninguém disse que tinha de chegar em casa pra matar”, justificou. Enfiou os trocos sujos no bolso e partiu sorridente, segurando volante com risca de sangue. Quem viu, ouviu: “Taí o que não vem na embalagem de ovo.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago