Matando galinha que não bota

Tadinha veio com pés amarrados, cabecinha tentando reconhecer coisa, e os olhos, parecendo pedacinho de sol, vagando daqui pra li, de lá pra cá

A cada 15 dias, buscar ovo na granja era sagrado. Esperava vez assistindo quem chegava e quem partia (Fotos: Getty)

A cada 15 dias, buscar ovo na granja era sagrado. Esperava vez assistindo quem chegava e quem partia. Meia caixa das grandes. Galinha selvagem poderia nascer e morrer sem nunca sonhar em botar tanto. Ah, deve doer, e drena o cálcio da bichinha.

Um homem gritava: “Só quero uma!” E sorria pra mulher dentro do carro. Tadinha veio com pés amarrados, cabecinha tentando reconhecer coisa, e os olhos, parecendo pedacinho de sol, vagando daqui pra li, de lá pra cá.

Enfiaram num saco e apertaram a boca – agonizava no silêncio do desconhecimento. Dava nem pra saber a última lembrança da bichinha. Bege estopado do saco? Pode ser. Fazia barulhinho débil, mas doído, quando jogaram no porta-malas.

Batida seca, coquinho craniano. Ah, deve doer também. Ninguém estranhava. “Normal”. Dizem que o último bafinho condenava quem matava. Ninguém ligava. A cena se repetia. Um, dois, três, quatro, cinco, por aí. Todo dia a morte batia.

Carninha branca, era o que viam – comiam. Davam de lamber beiços ali. “No molho, né? Uma delícia!” “Ainda tá com idade boa pra fritar também.” “Como sozinho em menos de dez minutos.” “Gosto da pelinha tostadinha.” Que vidinha!

“Se já não serve pra botar cai na panela – é o prazo de validade. O dono tá no direito.” Ovinhos a menos, degola pra mais. Presente, ainda é. Parece que não muda. Um e outro disputava quem matava mais rápido em casa. Dinheiro na jogada.

Aceleravam. As bichinhas indo de um lado pro outro no porta-malas. Nada mais importava. “Ideia do que acontecia?” Nem bicho humano se entendia. Pra não perder, sujeito desceu do carro numa tarde, abriu porta-malas e degolou tadinha. O sangue descia – cabecinha mole, hemorragia – morria.

“Ninguém disse que tinha de chegar em casa pra matar”, justificou. Enfiou os trocos sujos no bolso e partiu sorridente, segurando volante com risca de sangue. Quem viu, ouviu: “Taí o que não vem na embalagem de ovo.”

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