Depois que viu três bezerros mortos num dia de chuva, jogados sobre uma pequena carroceria com partes enferrujadas e apodrecidas, nunca mais conseguiu consumir leite nem nada com leite. Até que tentou, mas o gosto na boca era diferente, como se houvesse mais do que leite ou mais do que era tirado do leite.
“Um gosto de bezerro”, resumiu. Continuou lembrando da cena, de que morreram pela vontade humana, e que o consumo também determina quem morre antes e quem morre depois. “Pra esses aí, não há serventia”, ouviu, vindo de uma boca que não representava somente uma boca.
“Corpos pequenos apenas jogados um sobre o outro. Mas falar em ‘apenas’ não é minimizar a gravidade dessa realidade?”, repensou. Viu um bezerro com a boca aberta e logo pensou em agonia, expressão de dor. Também viu os olhos de outro que miravam sem ver. Jamais acordariam.
“Ainda tinham cheiro de mãe, misturado ao odor da chuva no pelo. Onde estão as mães?” Viu vacas a menos de 300 metros dali, presas, e não sabia quem poderia ter vindo de quem.
Na incerteza, também concluiu que, para elas, era um não poder ver e, pela imposta distância, um não saber – um movimento oscilante que revelava incômodo, impossibilidade. O que poderiam fazer as vacas? Voltou o pensamento para os bezerros. “É um nascer só pra morrer.”
No mercado, quando vê leite e derivados, pensa em bezerros mortos sobre outros bezerros mortos, um amontoado sem fim, e nas vacas que também são mortas. “Quantos animais nossa vontade irrefletida é capaz de matar?”
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