É intrigante como o espaço pode fazer a diferença em relação à percepção sobre um animal. Um porco que escapou do abate estava em jejum e faminto. Ele foi visto em uma praça, onde deram-lhe água e o alimentaram.
Isso atraiu atenção da maioria dos passantes, que pararam para admirá-lo. Viram muitos olhares e sorrisos em direção ao porco. Algumas pessoas queriam acariciá-lo, mas foram advertidas de que ele ainda estava assustado.
Não havia nenhuma pessoa falando de abatê-lo para comê-lo ou piadas sobre bacon. O olhar, em um espaço comum, por onde passam pessoas que alimentam-se de animais, era para o animal e não para um interesse que o fere e o mata.
A presença do porco, e em um espaço onde ele não foi pensado como algo, mas alguém, levou a uma outra perspectiva, de que é possível observar animais sem vê-los como um fim no interesse humano.
Ao contrário de onde estava muito antes, o porco não era visto de forma dominante como um mero meio de obtenção de carne. Quantos porcos que nascem e morrem todos os dias passam por isso?
Quantos recebem um olhar que não é sobre o que desejam tirar deles por meio da violência? A maioria dos porcos nasce e morre sem conhecer outra relação que não seja de coisificação. Desconhecem um mero olhar de consideração.
Se essas pessoas na praça são capazes de reconhecer um animal normalmente reduzido a um fim no consumo como o seu próprio, já que o porco na praça é expressão de seus próprios interesses, por que não considerar que o porco é simbólico de toda a vida que não deseja deixar de sê-la pela desnecessária imposição humana?
Se alguém diz que esse porco não deve morrer, por que não dizer o mesmo sobre todos os outros animais que, reduzidos a um interesse de consumo, nunca passarão por aquela praça?
O que evita o mal normalizado contra um animal, e que as pessoas não desejaram para o porco, é estender de forma incondicional e não relativista tal consideração, sem ignorar que o tempo todo há animais morrendo e que não vemos, e que estão em locais indesejados por eles, por interesses que se não superados não há como livrá-los dessa realidade.
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