Por que não é uma boa ideia chamar proteína vegetal de “whey”

É um termo que valida mais a proteína animal do que a proteína vegetal

Por que não é uma boa ideia chamar proteína vegetal de “whey”

Do erro semântico à subalternidade simbólica

Diferentemente de carne e leite, que nos dicionários têm um sentido mais amplo, whey realmente significa unicamente “soro do leite”, uma matéria-prima específica que nasceu como subproduto da produção do queijo. Isso evoca sua identidade específica de origem que reflete o uso de um resíduo da indústria láctea. Portanto, se não há um erro semântico em falar em “carne vegetal” ou “leite vegetal”, o mesmo não ocorre em relação ao whey protein – proteína do soro do leite. Assim não há uma lógica em usar esse termo.

Além disso, seria forçar uma associação desnecessária para a proteína vegetal em pó, já que ela pode e deve ser pensada como o seu próprio. Ao não ser, isso faz com que a ideia de “whey vegano” seja a do outro que não pode ser o seu próprio. Portanto, sua legitimidade é limitada pela referência ao dominante. Isso é condená-lo a ser sempre o “outro”, o “substituto”.

Ao ter o produto de origem animal como padrão principal, isso torna o produto vegetal algo que existe como imitação do primeiro. E a ideia de imitação já o coloca em desvantagem a partir da sua própria tentativa de ressignificação semântica – ao insistir na comparação com o que é legitimado pela própria hegemonia cultural (Gramsci) e com o que se insere no ideário dominante do habitus (Bourdieu).

Assim, isso tira da proteína vegetal a sua potência como capital simbólico de si mesmo para ser o capital simbólico à medida do outro – criando uma ideia de que consumir o “whey vegano” é consumir o que não é autêntico em si porque não existe como surgido da sua própria especificidade.

Isso ignora que a proteína vegetal já existia como o seu próprio, tendo seus próprios valores, prescindindo dessa associação que leva a uma conclusão inescapável de mimetização. Além disso, a proteína vegetal em pó ganha essa afirmação como uma tentativa falha de construção conceitual no ideário de consumo, porque proteínas vegetais em pó não costumam ser comercializadas como “whey”. Então por que chamá-las dessa forma se isso reforça a ideia de mera imitação com outro ingrediente?

Whey vegano”: a armadilha da linguagem do dominante

No campo da nutrição esportiva, o consumo de whey está internalizado no habitus como a escolha “óbvia”, “eficaz”, “legítima”. O “whey vegano” tenta se inserir nesse habitus adotando sua lógica e sua linguagem. Isso reforça as estruturas do campo em vez de criar um novo espaço de valor. O produto se torna um capital simbólico de segunda ordem, sempre medido pela régua do “original”.

Quando a imitação apaga a identidade própria

Proteínas vegetais em pó têm suas próprias histórias e propriedades únicas – específicos perfis de aminoácidos, digestibilidade distinta, benefícios adicionais (fibras, fitoquímicos). Ao ser chamada de “whey vegano”, todos esses atributos da proteína vegetal são apagados em favor de uma comparação deficitária e preconceituosa (“não tem gosto de whey“, “não é como whey“, “é diferente do whey“).

Quando a “alternativa” reforça o padrão

Vincular a ideia de um produto também a restrições, como pode ocorrer ao se pensar a proteína vegetal em pó em comparação ao whey, favorece uma estigmatização em que o produto é empurrado para ser pensado como algo de um nicho dentro de outro nicho. Assim, pensa-se o consumidor desse produto como aquele que não pode consumir “whey de verdade”. Logo, é o produto que não existe para fazer parte de uma hegemonia cultural, mas para ocupar um espaço limitado e que não existe para ser de outra forma. Como se fosse a alternativa ao que se gostaria de consumir sem poder – por questões éticas ou outras.

O que reforça essa vitória do whey como o padrão é que mesmo pessoas buscando uma opção vegetal por meio do Google ainda digitam “whey vegano”. Em sites como Amazon e Shopee, encontramos muitos comentários que endossam isso – a referência e a constante medida de comparação que mantém o protagonismo do whey. Isso cria uma lógica que sequer existia, já que muitas proteínas nunca foram vendidas sob esse termo baseado na tentativa, que pode na maioria das vezes não ser intencional, de uma nova semântica.

O uso do termo “whey vegano” parte de uma premissa de que é uma comunicação eficiente (“a versão vegetal daquilo que você já conhece”). No entanto, essa suposta clareza gera o efeito oposto: a diluição da especificidade dos termos. Assim, outro ponto é que o termo também pode levar a uma confusão, favorecendo até mesmo uma realidade em que pessoas que estão menos familiarizadas com esses produtos comprem whey achando que é uma proteína vegetal em pó.

Essa confusão é a materialização da subalternidade simbólica. O produto vegetal, ao se enquadrar como “o outro” do termo hegemônico, não só se coloca em desvantagem simbólica como também abdica de criar seus próprios códigos de identificação, podendo afetar também consumidores do seu próprio habitus. E isso, mesmo que seja explorado de forma bastante positiva, como parte da aproximação de mais pessoas com esse produto, não tira o whey “original” de seu lugar de “padrão-ouro” por comparação – mantendo-se na posição de protagonista.

Para acabar com a hierarquia, mude a pergunta

Logo, concluímos que a proteína vegetal, ao ser chamada de “whey” é colocada imediatamente na posição de “substituta”, de “alternativa”, de “cópia”. Ela é definida pelo que não é (não é de leite) mas tenta se vestir com o nome do que é. Isso cria uma relação de dependência semântica.

Essa dinâmica linguística tem um impacto real na percepção de valor. Para o consumidor que tem uma alimentação onívora (convencional, com alimentos de origem animal), há um reforço da ideia de que “o melhor” é o whey; e que a opção vegetal é “para quem não pode consumi-lo” (seja por escolha ética, alergia, intolerância). Isso leva a um enquadramento dentro do pensamento onívoro padrão como uma restrição, não como uma escolha positiva. Para a indústria, caminhar por esse terreno poderia colocá-la numa posição reativa em que a identidade própria pode ser ofuscada pela manutenção da comparação.

Quando fazemos o oposto, negamos que se pense essa proteína como um “whey vegetal”, criando assim um novo padrão. Logo, há o estabelecimento de um novo território em que estimulamos que se aprenda sobre outras fontes proteicas. As pessoas passam a conhecer as propriedades das proteínas vegetais em vez de reduzi-las a “alternativas”.

Por isso também o foco não pode ser o que falta na proteína (seu valor baseado na ausência) e sim suas qualidades positivas e intrínsecas. Isso também contribui para que ela passe a ser pensada como legítima, com seus próprios méritos. A pergunta precisa deixar de ser “é whey ou não?”

Não há necessidade em usar o “whey” como padrão de referência e sim em manter o foco em quantidade de proteínas por dose, o perfil de aminoácidos, a solubilidade, textura e o sabor; e como o corpo reage à proteína. O produto não pode se definir por comparação se quisermos um novo normal.

Ao defender o seu próprio, favorecemos o caminho para que ele faça parte de um projeto cultural mais amplo para uma nova hegemonia, e isso depende do que precede o próprio produto – as associações culturais de valores. Isso, aprendemos com Bourdieu, depende do “domínio simbólico”. Para construir um capital simbólico próprio, a proteína vegetal deve abandonar a lógica de “ser como” e afirmar seus valores distintivos.

A mudança também depende de um processo em que cada um de nós, individual e coletivamente, adotemos uma linguagem mais precisa que tire a referência principal do campo hegemônico dominante – a proteína animal. A tarefa, portanto, depende de desfazer décadas de associação simbólica e oferecer uma narrativa clara sobre por que escolher “o seu próprio” não é uma concessão, mas uma afirmação.

A batalha pela hegemonia se trava fora do mercado 

Ao fazer isso, estamos não apenas sendo mais fiéis aos fatos, mas também construindo um ambiente onde as proteínas vegetais são vistas como o que são: opções legítimas, não “cópias” de algo supostamente superior. É importante não perder de vista a ratificação da proteína vegetal como o seu próprio.

A comparação constante cria uma hierarquia artificial. O whey sempre será o “A” e a proteína vegetal o “B” que tenta ser um “A+” ou mesmo um “A”. Ao se afirmar como algo diferente, a proteína vegetal quebra essa escada. Ela não está em um degrau abaixo; ela está em sua própria escada. Isso é profundamente empoderador. Significa que o valor de um produto não é determinado por sua semelhança com outro, mas por suas próprias características.

E se as marcas se libertarem de obrigação de imitar o whey, mesmo quando isso ocorre somente no campo da formulação, elas ganham liberdade em inovar em novos sabores que não são explorados pelo “universo do whey”, em combinações mais inovadoras e em outros tipos de aplicações. Portanto, é preciso correção semântica, normalização linguística e afirmação da identidade própria.

Isso funcionaria como uma transição de uma postura defensiva (“não é pior que”) para uma ofensiva (“tem o seu próprio valor”). É a maturidade do consumo se manifestando na linguagem. A medida de qualidade de um produto vegetal não pode ser um produto de origem animal, mas sim qual papel ela cumpre no fornecimento dos nutrientes que precisamos e no que buscamos em relação a um produto “como o seu próprio”.

Essa reflexão não deve se limitar à proteína vegetal em pó. Pode ser estendida a todos os produtos em que a “versão vegetal”, por ser “versão vegetal”, ainda é tratada como uma imitação, como um produto que não pode ser suficiente por si a partir da sua própria construção semântica – em que a referência primeira é o produto de origem animal, tornando inevitável a comparação.

Isso deve fazer parte da maturidade do pensamento nutricional e ético. É entender que a qualidade não é um ponto fixo e universal (o produto animal), mas um espectro de adequação aos nossos corpos e aos nossos valores. Esse é um ato de descolonização do imaginário alimentar.

Conclusão: a descolonização do imaginário alimentar

Enfim, o que fazemos culturalmente na validação de determinadas percepções sobre o que consumimos também faz parte da guerra de posição de que fala Gramsci. Porque se aceitamos ser “o outro”, então seremos “o outro”, já internalizando a derrota mesmo que irrefletidamente na disputa pela hegemonia; e da qual depende a criação de um novo senso comum. E nessa disputa, o que ocorre no mercado sempre importará menos do que o que fazemos fora dele.

Afinal, o mercado é onde a hegemonia se materializa pelo que é indissociável dele nas relações de consumo. Mas a hegemonia é construída e legitimada fora dele, no cotidiano, nas conversas, nos valores que internalizamos como naturais. Logo, se o mercado é a estrutura (base material – esfera da economia, da produção), a superestrutura (cultura, ideologia, política, direito, educação), que naturalmente o precede, é a esfera, de fato, determinante, onde se dá o conflito e a disputa. Enfim, é o mundo das ideias, valores e senso comum.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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