Categorias: Opinião

Não é ser submetido a uma prisão ser criado para beneficiar animais de outra espécie?

Foto: Lukas Vincour

Não é ser submetido a uma prisão ser criado para beneficiar animais de outra espécie? O conceito de benefício atrelado ao consumo também pode ser questionado se esse benefício é também um malefício.

Não penso em prisão somente como espaço físico, de onde o animal não deve sair, mas também nas formas de imposição que suprimem e reprovam manifestações, comportamentos e estados de ser.

Determinar como um animal deve viver e morrer é parte do processo de aprisionamento. E por que não entender o limitar como uma forma diversa de aprisionar?

Há uma crença de que é possível obter dos animais o que queremos sem precisar aprisioná-los, proporcionando o que comercialmente é chamado de “liberdade”.

O conceito de “animal criado livre”, por exemplo, é incompatível com qualquer realidade condicionada em benefício humano, porque se esse animal existe para um propósito comercial, sua liberdade é uma ausência.

Afinal, não é a produtividade que está atrelada a essa falsa liberdade? Um animal criado para propósitos humanos não está sempre sendo avaliado sob uma perspectiva que nada tem a ver com um inerente interesse não humano?

Um animal que nasce para a cadeia de consumo humano é uma criatura aprisionada, e sobre ela pesam as expectativas de compensação em relação à sua presença no mundo.

Essas expectativas estão vinculadas às imposições. Por isso há sempre um nascer e um morrer aprisionado, e normalizamos essas prisões que ignoramos como prisões.

Chamamos de “livres” os animais que estão fora de gaiolas ou do que definimos como “confinamento”, ignorando que eles nascem confinados às nossas vontades.

Um animal pode correr por um grande espaço, e posso dizer que ele parece “sentir-se bem”, mas se o que espero dele é geração de produtos e lucro, e se sua vida é baseada nas minhas determinações, assim como seu fim, como posso não reconhecer seu aprisionamento?

A própria ideia de criar um animal para que ele possa nos servir é confiná-lo a uma prisão que está além de um espaço físico. E se ele existe para corresponder a um volume de produtos, a sua condição biológica é também expressão intrínseca de aprisionamento.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

1 semana ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

2 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

3 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

1 mês ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 meses ago