Para onde olhasse, via carne. Até o que não era carne tinha cheiro de carne e misturava-se à carne. Na sobremesa? Também carne.
Ofereceram um pedaço. “Não, obrigado!” “Que tal este outro?” “Não, obrigado!” “Mas e aquele?” “Não, obrigado!” Já sentia-se incomodado quando trouxeram-lhe a “salada”.
As folhas eram feitas de carne. “Não, obrigado!” “E que tal um lombinho?” “Não, obrigado!” “Um salaminho?” “Não, obrigado!” “Um queijinho? “Não, obrigado!”
“Por que o diminutivo? As coisas, que não são coisas, apequenam-se com as palavras?”, monologou e pensou em dissimulação de intenção.
“O que tem de errado com o queijo que não é carne?”, questionou-lhe um rapaz. “Mas vem da carne, viva, um corpo vivo.”
Então alguém achegou-se. “Que tal um jamón?” “Não, obrigado!” “Ah! Mas deve haver algo de animal que o senhor coma!” “Não, obrigado!”
Mostraram-lhe uma variedade de morcilhas e chouriços que abriu-se como uma coleção de facas. “Não, obrigado!”
“Mas qual é o problema em comer só hoje? Uma beliscadinha, um pedacinho? Quem vai saber? Ora, quem? Que impacto tem isso? Uma exceçãozinha. E amanhã volte a não comer e está tudo certo, não é mesmo?” “Não, obrigado!”
“Então, o que decidiu comer?” “Nada!” “Como assim?” “Nada!” E coçou a barriga satisfeito em não comer nada. “Isso é constrangedor, meu senhor. Peço que retire-se.”
Levantou, comeu o “sim, obrigado!”, deixando um cheiro verde, e foi embora.
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