O corpo de um animal criado para consumo não é visto como um “corpo outro”, como do próprio animal, mas como algo emprestado que pode ser violado sempre que julgado adequado.
Talvez a ideia de emprestado também seja tão real quanto irreal, porque ao animal não é permitido exercer domínio sobre o próprio corpo, e o empréstimo então, do que é si mesmo, é parcial, para ações que não entrem em conflito com a imperativa finalidade como produto.
Isso é perceptível ao observar animais que trazem marcas de violência e manchas artificiais pelo corpo, que são vencidos por instrumentos que determinam o que devem fazer e como fazer.
Para cada reação considerada inaceitável de um animal, como uma resistência, haverá reprovação que ele poderá sentir na pele, mas nem a pele é reconhecida como dele, porque também é parte do produto que é o seu corpo.
Pessoas olham para esses animais e os identificam por tudo que não são, associam com uma propriedade ou proprietário, uma empresa, uma marca, um destino determinado pelo lucro/consumo.
São reforços de posse, de que o animal não é sobre o animal, e o seu corpo não é sobre o seu corpo. O animal é visto como uma transição, um meio, um processo – e também uma descaracterização, uma destituição.
Errado seria dizer que um animal é um “vivo-morto”? Concluo que não, porque ele é uma criatura viva à medida em que não deve ser – em razão do não ser. E sua condição de não vida norteia todo o seu desenvolvimento, que também não é sobre ele, mas sobre o que dele pode ser abstraído, subtraído, que é a totalidade de si.
Se digo que está vivo, digo também que está morto, porque tudo sobre ele, na ausência de seu reconhecimento não reificado, é sobre não estar mais aqui – como, por exemplo, rendimento de carcaça, não importando se está em movimento ou observando algo.
O caminhão em que são transportados também não diz nada sobre eles, porque não é sobre eles, é sobre a reafirmação do não ser – sobre peso, posse e morte. Então alguém diz ter receio de que alguns animais cheguem ao destino mortos. A preocupação não é sobre eles, que serão mortos, mas sobre o que pode interferir na lucratividade.
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