Categorias: Opinião

Um animal explorado é um animal acorrentado

Um animal explorado é um animal acorrentado. Não preciso considerar somente as correntes que podem ser tocadas ou sentidas, porque observar um animal subjugado é observar um animal acorrentado.

Se são correntes materiais, nem todos a recebem, mas se são correntes imateriais, estão sempre envolvendo os animais, definindo impossibilidades que escapam ao que é definido antes do nascimento como finalidades.

Um animal não chega, mas é “chegado” para ser uma finalidade, uma subtração constante de liberdade, vontade, particularidade e fisicalidade, e a normalização dessa realidade permite um olhar em que a corrente é como inerente ao animal, como extensão de seu corpo, um membro a ser reconhecido.

Então olhamos para a corrente e dizemos que ele existe para ela, na sua forma material e/ou imaterial; que ele serve à corrente como expressão de nosso interesse, de nosso domínio, de seu estado de servilismo; que a corrente, como recurso supremacista, nos beneficia, portanto, é essencializada.

Acreditamos (e/ou dizemos) que o animal explorado gosta da corrente e a corrente gosta dele, porque sua breve vida, que julgamos vida nossa, pelo imperativo violento da pertença, é submeter-se à corrente.

E livrar-se da corrente seria livrar-se de nossa vontade, e se é nossa vontade que determina o nascer acorrentado, a razão do seu estar, ele não deve existir se livre da corrente, porque é a corrente que atribui-lhe o valor que desejamos em oposição ao valor posposto.

Logo não concebemos o animal subjugado como não acorrentado, porque a ideia de vê-lo incondicionado, ainda que sua origem seja condicionada, ou talvez insubmisso, ainda que doméstico, é vê-lo como “sem finalidade”.

Assim usamos de maneira dissimulativa a ideia da “não finalidade” para reforçar uma crença de que é a corrente que dá sentido ao animal, e que a corrente “é viva”, e precisa continuar “viva” por todas as configurações imateriais de interesse humano que enseja – enquanto o animal é um alvo em trânsito, e que continue chegando e partindo, sem deixar de prender-se à corrente, como se ele próprio a reivindicasse, sem nunca, claro, ter feito isso.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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