Recebeu quatro disparos no crânio e continuou em pé. Observou o magarefe assustado saindo do box pra chamar o supervisor. Boi também saiu e percorreu o matadouro com a cabeça vertendo sangue — rastro vermelho, cabeça vacilante, olhos perdidos e pouco viço.
Atravessou o corredor e desabou, convulsionou e se debateu. Tentaram laçar e imobilizar as pernas. Quando a língua do boi já não tocava o chão, um homem ganhou cabeçada da vaca que arrebentou a entrada do box a coices.
Recém-chegada ficava em volta do bicho caído com a cabeça sangrando. Com quatro disparos, o que era? Boi não sabia. Não queria morrer, mas não parecia viver. Perdeu muito sangue. Olhos fechavam e abriam. Gemidos e mugidos, tudo atravessado.
Alguém pegou um bastão de aço pra afastar a vaca. Não queria aproximação. Nem movia patas. Ficou em frente e mugiu, mugiu. Tetas murchas sangravam. Derramava e se misturava com o fluido do boi caído. O que era de quem? Tentou levantar outra vez. Como? Quanto sangue no chão…
Vaca ofegava e tremia — de um lado para o outro, brava, desesperada, assustada. Escorregou no sangue avolumado e caiu em cima do boi. Encontro de mãe e filho. Dizem que ele morreu antes da lâmina encostar no pescoço. Ela? Não concordava.
“Pensou que dava pra ressuscitar”, disse uma testemunha. Agora estão ali no açougue — alguns pedaços na vitrine — tudo em família, a carnificina.
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