No zoológico, um animal vai de um lado para o outro, sem parar. Chega a um limite e volta, encostando noutro limite. Percorre os limites do espaço, reconhecendo com as patas tudo que é o espaço.
As crianças que veem se divertem. Acham que ele quer brincar, que se move para interagir, entreter; que o viver dele é diverti-las. A percepção de seus movimentos é de um dever, um dever em relação a quem assiste.
Quanto mais o animal cativo se move, mais o público aplaude. “Quanta energia!”, observa alguém. Mas ele não brinca, não se diverte. Interação não é sua intenção. É o estresse que o move.
Espaço pequeno, exposição, conversas, gritos humanos, choro de crianças, movimentação constante. Mover-se de um lado para o outro sem parar é desejo de não estar. O que ele sinaliza não é o que se vê. Por que não?
Porque não é o querer não humano que, mais uma vez, deve prevalecer. Pessoas veem o que querem, que não é o que o animal do outro lado das grades quer. Pode o animal no zoológico não desejar o zoológico? Pode o animal no zoológico rejeitar o zoológico? Se sim, o que muda o querer?
Há comida intocada ao lado. Não é comida que o animal cativo quer. Ele continua correndo de um lado para o outro, agarrando as grades e se movimentando até não poder, para depois recomeçar.
As pessoas riem, sempre riem – divertem-se com ele, sem que o “com”, arbitrário, seja reconhecido por ele, que não se diverte com as pessoas, porque não compartilha a essência dessa motivação que é resultado de sua situação.
É como dizer “me divirta”, porque “essa é sua função”, uma repetição, um constante corresponder à vontade humana de uma visita que pode não ser repetida. Mas quando isso deixa de ser repetição para quem deve estar para a constância de ser visto e não somente visto?
Porque desse animal a tendência é sempre querer mais do que ver um (imposto) viver, pela relação negociada (não com o animal cativo) estabelecida por um ingresso, uma entrada. O animal atrás das grades é a antítese do animal fora das grades, que pode partir a qualquer momento para já não vê-lo. Que opção tem o animal que se move não para entreter?
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