Categorias: Opinião

No zoológico o público encontra animais que não anseiam por esse encontro

Foto: via The Dodo

Zoológico é um lugar onde o público pode encontrar animais que não anseiam por esse encontro. Encontram o animal que é resumido a uma descrição, que é sobre quem ele não pode ser. O animal no zoológico é impossibilidade, o ser preso ao não ser.

Se condicionadas, as crianças veem nesse animal uma ideia romântica, uma quimera, e o associam a histórias ligadas à vida natural – que talvez o animal nunca tenha conhecido, ou se conheceu foi abstraído dela.

E se nos entregamos a esse fácil romantismo, vemos o que não vemos e nem percebemos, porque somos rendidos pelo que é pré-concebido em nós. Isso ocorre quando somos conquistados pela forma, e a forma é percebida como se fosse o próprio animal – como se o animal fosse uma imagem que preenchemos com nossa vontade.

O incômodo no zoológico também surge quando o animal, no seu alheamento, foge à espetacularização esperada sobre sua condição – quando o interesse humano é o desinteresse não humano. O zoológico é um espaço de paradoxos – onde o encontro de um é o desencontro de outro.

Vários autores exploraram essa questão – Rainer Maria Rilke, J.M. Coetzee, John Berger. Chegamos com nosso olhar e então não encontramos o olhar dos animais. E se encontram o nosso, não reagem da maneira que esperávamos. Será que é por isso que o ápice do antropocentrismo no zoológico é a invasão do cativeiro não humano?

Quando o ser humano não admite não ser entretido nem percebido pelo não humano. E descontente em estar no zoológico para esse encontro não compartilhado, invade sua prisão para confrontá-lo. Exige que o animal reaja de acordo com sua vontade. Quer impor mais subalternidade a quem foi subalternizado.

Me recordo que Coetzee escreveu que nos primeiros zoológicos, uma herança do colonialismo, os animais eram expostos para que o público não apenas os observasse, mas também os agredisse – com golpes e escarros.

Hoje bater nesses animais não é permitido, mas como dizer que no público não há aqueles que visam agredir os animais com seu olhar de reprovação que espera deles o que não se interessam em oferecer? Há nesse desinteresse também uma insubmissão, talvez a única possível a um não humano nessa condição.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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