Categorias: Pequenas Narrativas

Quando a vaca deixou de gerar leite decidiu matá-la

Quando a vaca deixou de gerar leite decidiu matá-la. Não teria mais leite, mas teria carne. Em um mês já não havia mais carne.

Dividiu com alguns familiares e amigos mais próximos e não restou nada sobre o que foi a vaca. A pele vendeu para ser reduzida a couro.

Livrou-se também dos cascos, dos olhos, dos órgãos indesejados e de algumas partes que não gostaria de comer ou que não sabia quem compraria.

Na ausência do que foi a vaca sentiu remorso pelo que fez, não naquela época. Mas como recuperar a vida da vaca?

O remorso não restaura a vida findada. Quatro anos da vaca na propriedade e não viu mal em matá-la.

“Não é o que todos fazem? Quem não mata para não ter despesas desnecessárias? É caro manter um animal grande que não traz retorno…”, disse, na sua retórica, sem ansiar por resposta.

Décadas mais tarde, acamado e morrendo, em meio às recordações, também lembrou-se da vaca que não precisava matar.

Devaneou que a vaca não foi abatida e que continuou no pasto até ter morte natural, sob a sombra de uma mangueira.

Estava deitada como a vaca pintada por Van Gogh, rodeada de cores, de vividez, da mansidão de si e de fora, imperturbável.

Quem poderia privá-la? Como poderiam desejar privá-la? Não desejavam, nessa ideia em forma de quimera.  De repente, voltou-se à verdade.

A corda no pescoço, o corpo cansado, o sangue derramado, o olhar da vaca com os pés amarrados, puxada mangueira acima e observada de ponta-cabeça.

Era a mesma vaca que, quando podia, brincava no pasto, interagia com cães e gatos que ele nunca mataria. A lembrança fixou-se no olhar de terror, que naquele dia escolheu não ver.

“O que poderia ser melhor que a carne neste momento?” Não precisava, mas por que não acreditar que é melhor assim? “Sou como todos os outros…”

Pensou nos quatro anos de convivência, no gosto da carne, do corpo pacífico que, no condicionamento e na confiança, tudo aceitava.

Agora era ele que morria e, na lembrança, a experiência de quem morreu pela chance que não foi dada de não morrer, não naquele dia, não para um fim tão minúsculo em relação à vida.

 

Leia também “Vacas e bezerros também sofrem em propriedades familiares“, “Um documentário para você nunca mais tomar leite“, “Leite tem gosto de violência” e “Vacas devem ser tratadas como coisas?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Que relato pesado.
    As pessoas estão tão apáticas que matar é como respirar e quando vão ver o que fizeram, já é tarde...
    São tempos difíceis, mas precisamos permanecer fortes para garantir o veganismo à próxima geração.

  • Cada postagem sua é altamente significativa. Triste demais viver em tempos em que animais são considerados produtos industriais. E mesmo outros animais são sempre tratados como seres desimportantes (fora da tal escala dos considerados 'domesticados'). E ainda vivemos um tempo em que existem zoológicos.

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