Categorias: Pequenas Narrativas

O leite é do bezerro

“Mas se o leite da vaca alimenta o bezerro e eu não sou bezerro, por que eu tomo leite de vaca? Não é estranho?” (Ilustração: Roger Olmos)

Voltando da casa da vó, o menino viu um bezerro mamando em uma vaca à beira da mangueira em um sítio. Ficou encantado com a cena. Nunca tinha visto aquilo, e lembrou de uma gata e uma cadelinha que viu amamentando. “Mas nunca tomei o leite delas”, concluiu em pensamento.

“Mãe, pai, aquele leite que o bezerro tá mamando é o mesmo que a gente toma?” “É sim, filho, é de vaca”, respondeu a mãe. “Hum…mas a gente não toma leite de gata e de cachorra, toma?” ‘Claro que não, né?” “Então por que a gente toma de vaca?”

“Porque esse é o trabalho das vacas, e o leite tem proteína.” “Ué, mas olhe ali, o bezerro tá mamando na vaca. Então o leite não é pra ele? Assim como o da gata é pro gatinho e o da cachorra é pro cachorrinho.” O pai começou a rir e a mãe hesitou por um momento.

“Filho, é normal a gente tomar leite de outro animal, quero dizer, de vaca. Elas são criadas em grande quantidade pra isso. Você não vê as pessoas criando cachorra ou gata por causa de leite. E vaca é um animal grande, então dá bastante leite e tem nutrientes”, disse a mãe.

“Mas se o leite da vaca alimenta o bezerro e eu não sou bezerro, por que eu tomo leite de vaca? Não é estranho?” “É…ele tem um bom argumento”, comentou o pai. Antes que a mãe respondesse, o menino coçou a cabeça e continuou: “Acho que todo mundo que conheço toma leite. Com tanta gente tomando o leite do bezerro, sobra o suficiente pra ele? Não fica com fome?”

A mãe não soube responder e o pai sabia que, diferente do que o filho viu, o destino comum de bezerro macho em fazenda leiteira é a separação da mãe seguida de descarte, mas não quis falar a respeito. “Não sobra, filho, realmente, não sobra”, resumiu. “Entendi. Então vou parar de tomar leite pra ajudar a sobrar um pouquinho mais pra ele.”

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

1 semana ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

2 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

3 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

1 mês ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 meses ago