O que evoca a imagem do derramamento de sangue dos animais? Um bom sentimento? Uma ação positiva? Uma satisfação? Podemos pensar em cores, nuances, cheiros, desconfortos, perda de energia, de vitalidade, fins.
Para muita gente, o sangue, em grande quantidade e fora de um corpo, é algo que não gostariam de ver. E que tal manchas na parede, no chão, respingos frescos? Dependendo de intensidade e impacto, uma pequena porção remete-nos a um corpo, independente de sua presença.
O corpo pode não estar ali, mas isso não impede seu reconhecimento, sua passagem, sua transitoriedade, além do sangue ser reafirmação de uma condição viva que já inexiste. O sangue é o líquido que incomoda quando perceptível demais, “real demais”.
Se nos deparamos, por exemplo, com imagens de animais criados para consumo em situações de medo/sofrimento/morte, o choque é mais evidente quando há sangue envolvido, por mais fácil associação com dor e com o obliterativo, e porque remete-nos à brutalização do ato, à visceralidade.
Mas não é o derramamento de sangue uma inerência? Logo independe de nossa percepção. Ademais, um registro que não externaliza sangue não anula seu derramamento.
Mesmo quando não vejo o sangue, não ignoro sua precedência, porque muitos produtos de origem animal são indissociáveis do sangue, e não preciso limitar-me a pensar em carnes.
O sangue também é simbólico da subjugação animal, porque refere-se a um esvaziamento de vida, e que é mantido distante dos consumidores. No entanto, difícil seria associá-lo?
Se reflito sobre o que a geração de um produto exige de um animal na vida e na morte, reconheço que há sangue onde não há sangue, o que significa que há muito vermelho onde não o vemos, não importando a cor do produto e o tipo de embalagem em que é comercializado.
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