Categorias: Opinião

O que pensamos sobre a comum decapitação de animais?

Cabeça de um boi e um porco que também será decapitado (Fotos: Tommaso Ausili)

É comum a associação de decapitação com brutalidade, barbárie. Afinal, o que evoca de positivo a imagem de alguém com a cabeça removida do corpo? Seria justificável arrancar a cabeça de alguém?

Acredito que para muitos a palavra “decapitação” remete a uma ideia medonha de violenta realização. Uma imagem de uma cabeça separada do corpo, ainda que não vista, mas somente imaginada, facilmente gera grande desagrado, incômodo.

É natural que não haja prazer sobre isso, e logo associamos às ações viscerais às quais alguém pode ser submetido quando o objetivo não é apenas matá-lo, e sim destruir também sua imagem e representação.

É mais do que assegurar o fim de uma vida, é uma ação de anulação, de rejeição, de transfiguração, de reducionismo, de obliteração e de manutenção do medo. Se pensamos nas situações em que um ser humano impôs ao outro essa prática, é mais provável que encontremos mais ódio e espetaculização como motivação do que justiça.

Mas e quando a decapitação é naturalizada e invisibilizada? Pensemos nos animais que as pessoas consomem. A maioria é submetida à decapitação. Então alguém pode dizer que a decapitação não é causa da morte, e sim consequência (embora a degola, que também reconhecemos como bárbara se praticada contra humanos, seja).

Quem diz isso tem razão, mas ser consequência não anula a prática de decapitação. Não significa que os animais consumidos não foram decapitados, que suas cabeças não foram desconectadas de seus corpos.

A decapitação representa tanto a descaracterização de uma criatura quanto uma neutralização “compatível com predileções de consumo”, que inclinam-se mais aos “desejos pela fragmentação”. E como a “decapitação” ocorre de forma institucionalizada, continuísta, é como se “não existisse decapitação”.

Porém, não significa que seja adequado acreditar que consumir uma pequena parte de um animal não significa comer parte de alguém que foi decapitado, e sua cabeça, que não estimula um desejo, é removida antes que as partes desejadas sejam vendidas.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago