Não sei quantas vezes vi peixes mortos com a boca aberta. Quem sabe? É o que há de mais simbólico sobre a morte de um peixe. Se eu for agora a um supermercado ou peixaria, tenho certeza de que contarei muitos com a boca aberta, como se ainda estivessem tentando superar a asfixia.
E morrem assim e ficam assim. São abertos, “limpos” e vendidos. O termo “limpar” é intrigante, porque faz pensar em limpeza, como se os órgãos de um animal fossem tipos de impurezas, sujeiras. Tudo que não é esteticamente interessante ou agradável ao paladar deve ser removido.
E fica a carne, que não chamam de carne, como se o peixe fosse feito de algo indefinido, porque negam-lhe até a percepção como criatura carnosa. A inferiorização do peixe então supera outras, e a ideia de “não carne” também facilita a banalização de sua condição.
Mas o peixe é animal que mesmo depois de morto continua externando sua condição. Um peixe é a estátua de seu fim, com seu olhar ainda destacado que me leva a pensar em sua pregressa capacidade de observação.
Quantos passam uma vida comprando e consumindo esses animais sem que em algum momento parem um instante para observar-lhes a boca e os olhos? É como se peixe fosse peixe sem ser peixe. Afinal, veem ou peixe ou a ideia que criaram do peixe?
Uma ideia que convenciona e limita a percepção pode se tornar viciada pela repetição.
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