Perguntaram-lhe o que gostaria de fazer para não contribuir com mortes. “O que está ao meu alcance.” “É?” Suspirou. “Sim…” Então mostraram animais lado a lado, em posição que lembrou os querelados de alguma coisa.
Viu um novilho, um porco, um frango e outros mais que não identificou por falha de luminosidade, que não sabia se era mais da consciência ou do ambiente. “São muitos, mas não vejo todos. Posso tentar…”, antecipou-se com olhar enviesado que era mais ensimesmado.
“Acha que o primeiro tem culpa?” “Não…” E o segundo? “Não…” Que tal o terceiro? “Também não…” “Vão daqui para a morte. Creio que já sabe.” “Sei sem saber.” “Como? “Sei, mas se não vejo, não posso dizer que não sei?”
“E concorda?” “Não sei, só que gosto de comer.” Coçou a cabeça e a virou. Havia um banquete ao seu lado. Olhava para os animais vivos e mirava pratos.
Toda hora tem antes e depois, e multiplicam-se como se não houvesse exaustão para afugentada repetição. E há, se nascem, partem e refestelam-se o tempo todo? Não eles, outros.
“Então enganou-se e já não há nada ao seu alcance? Ou já não havia? É isto ou aquilo?” “Que posso dizer? Talvez seja melhor não dizer. Não pensei em quem, e não sabia se veria quem como quem.”
Ainda conseguia vê-los em proporção de não vê-los. “Então devo vê-los?” Ninguém respondeu. Olhava para os animais que olhavam para ele que mirava pratos.
“Apetite, cheiro bom, gosto bom, prazer de comer” – palavras que dispersavam-se pela consciência, juntando-se e separando-se. Observou de novo os ladeados que pareciam estátuas de carne, osso e mais. “Abater, não viver, morrer, perecer” – outra dispersão, junção, separação…
Os animais não mimetizavam o comportamento humano. Encaravam seus olhos e ateve-se a algo. Não tentou interpretá-los atribuindo-lhes expressões humanas, antropomorfias. “Que necessidade haveria?” Sabia que tudo se apagaria, e apagou, restando apenas uma mesa vazia.
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