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Peter Singer diz que ser vegano não é questão de pureza

(Foto: Derek Goodwin)

Em entrevista publicada em setembro pela Harvard Political Review, o filósofo Peter Singer, responsável por popularizar o termo “especismo” por meio do seu livro “Libertação Animal”, obra que se tornou referência para o movimento moderno dos direitos animais, declarou que é preciso atribuir status de consideração igualitária aos interesses dos animais não humanos.

“Mas precisamos deixar claro que, quando falamos sobre igual consideração de interesses, estamos falando sobre interesses semelhantes. Isso não significa exatamente que os interesses dos outros animais sejam iguais aos nossos”, disse.

Singer citou que os animais não humanos, diferentes de nós, não têm a capacidade de planejar suas vidas, mas nem por isso têm menos interesse em não sentir dor física. “Se presumirmos que há quantidades semelhantes de dor física sendo sentidas – então o status dos animais deve ser igual”, acrescentou.

Questionado se hoje incentivaria os vegetarianos a tornarem-se veganos, ele disse que ser vegano é a coisa certa a se fazer: “Isso significa que você não é cúmplice de várias formas de sofrimento animal e que tem uma dieta que é mais sustentável para o planeta. […] Não acho que seja uma questão de pureza ser vegano.”

Para Peter Singer, consiste basicamente em evitar causar sofrimento aos animais, seja por meio do consumo ou de qualquer outra ação, assim como também evitar prejudicar o meio ambiente.

O filósofo também pontuou que não acha que faz muito sentido ver a virtude como a base da ética, por exemplo, na oposição ao consumo de animais, e porque, segundo ele, a virtude depende da existência de outros valores.

Sobre o meio ambiente e a senciência das plantas

Sobre as preocupações com o meio ambiente, ele avalia que não são independentes da preocupação com o bem-estar de seres sencientes.

“Se, de alguma forma, danificar o meio ambiente não afetasse nenhum ser senciente – por exemplo, um cenário de última pessoa na terra em que você era a última pessoa na terra e pensou que seria divertido queimar a floresta na ilha em que você está vivendo antes de morrer – não consigo ver por que isso seria errado. Seria uma preferência estranha, mas não acho que seria moralmente errado. Acho que essas coisas realmente dependem do impacto que têm sobre os seres sencientes para terem significado moral.”

Tarun Timalsina, da HPR, também pediu a opinião de Singer sobre o campo da neurobiologia vegetal, que busca estabelecer as plantas como seres sencientes e conscientes.

“Não vi evidências convincentes de que as plantas são seres conscientes. A palavra ‘senciente’ é um pouco enganosa, embora seja verdade que eu a uso e é de uso popular. Mas, estritamente falando, suponho que você possa dizer, bem, as plantas são sencientes porque sentem a luz do sol e viram suas folhas em direção ao sol. Isso é o suficiente para ser senciente. E, nesse sentido, uma porta de elevador que detecta se você está com o braço no caminho também é senciente”, respondeu.

E continuou: “Mas estou preocupado com a consciência – sobre os seres tendo experiências. Existem muitas informações intrigantes sobre as plantas, mas, no meu entendimento, nenhuma delas realmente estabelece que as plantas tenham experiências conscientes.”

Progresso na redução do sofrimento dos animais

No entanto, o filósofo reconheceu que se um dia for provado que as plantas têm consciência, isso representará uma mudança.

“Gostaríamos de evitar que elas sofressem tanto quanto pudéssemos, mas ainda temos que comer algo, e não acho que morrer de fome e ser extinto seria o mais adequado. Então pensaríamos em minimizar a quantidade de dano que estamos causando às plantas. E certamente isso ainda sugeriria, creio eu, que devemos comer plantas diretamente, em vez de consumir animais, porque os animais comem muito mais delas. E se comemos animais, somos responsáveis ​​por um número muito maior de plantas consumidas.”

Em relação à sua posição sobre estimular um despertar moral nas pessoas ou se concentrar no aperfeiçoamento de carnes vegetais e carne cultivada. Singer apontou que o momento é de fazer as duas coisas. Para o filósofo, embora comer carne celular não seja vegano, ele disse que não considera isso errado. “Não há nenhum animal senciente sendo prejudicado, e é provável que seja altamente sustentável.”

De acordo com Singer, é importante tentar desenvolver carne vegetal e celular porque têm tem o potencial de reduzir drasticamente o sofrimento animal e a emissão de gases de efeito estufa. “Mas também acho que é importante que as pessoas entendam as razões éticas para fazer isso. Caso contrário, pode haver outras formas de crueldade para com os animais fora do consumo, nas quais não faremos progresso”, argumentou.

“Eu gostaria de ver nosso progresso na redução do sofrimento dos animais em geral, embora reconheça que criá-los para alimentação envolve, de longe, o maior número de animais e é responsável pela maior quantidade de sofrimento em relação a qualquer atividade que envolva animais.”

 

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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