“Pig”, de Michael Sarnoski, é um filme em que Nicolas Cage interpreta Robin, um homem que vive em uma cabana em uma floresta, onde sua comunicação diária é estabelecida somente com uma porca e, uma vez por semana, com um rapaz que o visita e que revende “suas” trufas.
A princípio, parece que a relação humana-não humana é baseada no que a porca pode proporcionar a Robin como um meio de sobrevivência, já que ela é quem encontra as trufas na região onde vivem. No entanto, quando invadem a cabana de Robin, o espancam e levam a porca, seu mundo desaba, e o que era visto pelos outros como uma razão para que ele mantivesse a porca por perto, na verdade, não é.
Robin sabe onde estão as trufas, mesmo sem a presença da porca, porque consegue localizá-las a partir das árvores, o que torna a percepção de uma relação instrumentalista com o animal equivocada. Contudo é exatamente pela crença de que um animal só é valioso à medida de sua utilidade que torna a porca um alvo.
Ou seja, não é a relação de Robin com a porca que faz da porca um alvo da ganância, de um universo competitivo em que controle e poder dependem de quem leva mais vantagens e do que se é capaz de fazer para garantir isso, mas o que é essa porca para o mundo na indiferença dessa relação humana-não humana. A porca é um meio, e sendo um meio só deve existir conforme o é. Se a porca é percebida como instrumento de poder, o interesse em obtê-la é pelo controle e domínio dessa crença.
Robin então inicia uma jornada para recuperar a porca sobre quem não compartilha esse olhar reducionista. Ele vê na porca o que outros não veem, e porque para eles a porca é somente mais um animal que pode ser substituído por outro. A distinção do filme está no poder dessa relação humana-não humana e na sua horizontalidade. Robin divide o mesmo espaço com a porca, a mesma comida (incluindo trufas). Não olha para a porca como se estivesse sempre interessado em estabelecer com ela a divisão do que é “o meu lugar” e do que é “o seu lugar”.
São dois corpos de espécies diferentes compartilhando o que é comum à animalidade – um reconhecimento diário do que é o ser sem a idealização do “dever ser”. A porca é para o momento o que Robin também é. E ele compartilha menos palavras com o seu visitante humano do que com ela. Isso pode ser apontado como antropomorfismo, ou não, e não deixa de ser o que sobre o outro animal é exercício constante de consideração e reconhecimento de uma complexidade outra que evoca um caráter de socialização que prescinde de uma linguagem compartilhada.
Em uma das cenas, Robin simplifica seu objetivo em relação à porca: “Eu a amo.” Claro que Robin não tenta resgatar outras porcas no filme, mas o que é especificidade sobre essa relação não deixa de evocar o que pode ser reflexão sobre o lugar suíno no mundo. Afinal, a porca, de quem Robin reivindica o direito à vida e a liberdade compartilhada na floresta, se vive, é uma potência do viver, e não apenas pela relação, mas pela sua própria condição de vivente, de quem anseia pelo que é bom e não pelo que é ruim.
Sendo assim, por que impor o que ao animal é ruim? A porca então pode ser vista pelo lugar comum do que é exclusão e imposição – do que é determinar como viver até não ser-lhe mais permitido viver. Isso pode ser refletido sobre a cena em que fala-se sobre uma “compensação” pela porca.
É evidente que a importância que Robin atribui à porca dá-se somente pelo ato de conhecê-la, de estabelecer com ela interação. Contudo se pensamos nessa porca e ao mesmo tempo refletimos sobre os animais que não conhecemos, e que são explorados e mortos por prescindível interesse humano, e que antes poderíamos ter conhecido, não é a normalização de não fazer isso que para tantos favorece esse arbitrário fim?
Até porque a realidade comum é a de que quando os animais nos são apresentados, eles vêm em forma de mercadorias. Sem dúvida, o que transforma nossa relação com os animais é o ato de ver o animal no animal e de pensá-lo na presença do que em relação a ele só não pode ser vida pelo que já foi vida.
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