Categorias: Pequenas Narrativas

Por que comer o que vem da ovulação de alguém?

Foto: Animal Justice

Tirou um ovo da caixa. Destacava-se pelo sangue seco. Os outros, não. Olhou para o ovo e não entendeu o motivo do sangue.

Disseram que é lembrança de que o ovo é resultado da ovulação da galinha. Ou seria controle da sexualidade da galinha? Por que comer o que vem da ovulação de alguém?

E o ambiente artificial, a manipulação das luzes, a modificação genética para botar tantos ovos por ano. E a muda forçada?

Saber disso fez pensar também em dor, o sangue como forma de dor. Dirão que é natural, mas o que é natural sobre esse animal?

Continuaram. E a peritonite? Pela primeira vez concluiu que comer ovo é estranho. Mesmo que no ovo não haja vida, não é do ovo que vem a vida?

Comer ovo então é como comer o ensaio de uma vida…pela ação biológica que é para a vida…ovo galado, ovo não galado.

Não é interferir na sexualidade desse animal, produtificar um ciclo de vida, uma capacidade reprodutiva?

Falaram de uma galinha que vivia num quintal e que mataram pela falta de ovo. E as outras então?

Na ausência de um, a compensação vem de outra forma. Quem deixa viver pelo que dizem que já não pode ser?

Passou o dedo pelo sangue seco e ficou uma pequena marca, ínfima. Não pensamos no ovo como se apenas saísse da galinha?

Mas quem reflete sobre esse “sair”? Tão pacífico nesse pensar, tão diverso e nocente noutro pensar. O que custa para tantas galinhas o ovo?

Observou o que sobrou do sangue seco e não pareceu certo comer ovo. Agora verei sangue em todos os ovos. Está errado?

Leia também “Ovos e aves na caçamba enferrujada“, “Galinha não bota ovo pra gente” e “Galinhas não costumam ser vistas como fêmeas“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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