Por que torcer pelas galinhas em um filme, mas comê-las depois?

“A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets” é uma obra interessante para avaliar o paradoxo dos espectadores que torcem pelas galinhas, mas que comem frangos e galinhas

 

O filme “A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets” é uma obra interessante para avaliar o paradoxo dos espectadores que torcem pelas galinhas, mas que comem frangos e galinhas. Ou seja, torcer para esses animais então só é real em um contexto irreal. Assim galinhas que não são de verdade recebem uma consideração que não é dada aos animais de verdade.

Nesse segundo filme, as galinhas levam uma vida pacífica ilhadas longe dos humanos, após a fuga bem-sucedida no primeiro filme, quando conseguem evitar que sejam abatidas. No segundo, Molly, que é filha de Ginger, a heroína do primeiro filme, quer conhecer o mundo.

Ela descobre tarde demais que o mundo externo é um mundo onde galináceos são coisificados e mortos, porque a liberdade garantida no primeiro filme não é sobre a libertação das galinhas como um todo, e sim somente sobre as galinhas que viviam em uma mesma granja. Então o viver das galinhas continua dependendo do isolamento, porque o predominante interesse humano é explorá-las e consumi-las.

Uma frase que sintetiza isso está bem clara no filme: “Nós não podemos nos arriscar em um mundo que considera as galinhas tão deliciosas”.  A obra também evidencia a inteligência das galinhas e mostra como o “bem-estar animal” pode ser menos sobre as galinhas e mais sobre a satisfação humana – porque “galinhas felizes são galinhas mais saborosas”.

No filme, a anulação de comportamentos naturais e a obliteração de interesses das galinhas ganha forma por meio do uso da ciência para “zumbificá-las”, privando-lhes da capacidade de oposição à sua redução a nuggets.

O medo e pânico comum às galinhas são anulados pela indústria e substituído por uma excitação artificial. Pode parecer superlativo, mas a ciência já tem sido utilizada há décadas para suprimir o gene do estresse em animais criados para consumo.

Concluo que as pessoas que assistem “A Fuga das Galinhas” e continuam consumindo esses animais trazem para a realidade uma evidenciação de que estão do lado dos vilões do filme, não das galinhas, mesmo que, numa expressão de contradição, tenham torcido para elas.

O filme está disponível na Netflix.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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