Por que a carne incomoda quando as pessoas estão perto de um cadáver?

Há uma cena na série “Good Girls” em que ouvir receitas com carne gera desconforto enquanto três mulheres transportam um corpo

No terceiro episódio da segunda temporada da série “Good Girls”, enquanto três mulheres transportam um cadáver humano embalado em partes, elas ouvem no rádio algumas sugestões de receitas com carne. Isso gera incômodo e uma delas desliga o rádio.

É interessante notar que a conexão entre corpo e carne nem sempre é evitável, e mesmo quando se está diante de um corpo que não é escolhido para ser comido.

O incômodo em ouvir algo sobre carne já evoca o reconhecimento da carne como corpo, e considerando o outro corpo que também é carne, mas que normalmente não tende a ser pensado como carne, menos ainda de forma comumente equiparável.

Mesmo que o corpo humano já esteja embalado, a experiência de estar próximo dele, para quem isso é incômodo, como no exemplo das personagens da série, amplia a dimensão de impacto da carne, inviabilizando a percepção comum da carne como desejável.

Logo a ideia do corpo como carne torna-se desagradável, e isso é evocado principalmente quando o corpo não está inteiro ou quando há uma associação mais fácil com a carne pelo que está à mostra ou que pelo menos pode ser pensado como à mostra.

Esse exemplo a partir da série remete a um dos momentos em que o ser humano, mesmo quando reforça o especismo por meio do consumo, estabelece, mesmo que de forma breve, uma conexão entre corpos e carnes que não são sobre o mesmo animal.

Assim o incômodo pela carne de outros animais é o incômodo pela carne na sua semelhança, no que é inegável como corpo e como morte, porque é essa dimensão de percepção que potencializa o incômodo. O resultado é uma experiência de desagrado e/ou nojo no simples e trivial ato de pensar em consumi-la ou manipulá-la.

A comum separação sobre a ideia de um corpo e outro, de uma carne e outra, então é anulada, para depois dessa experiência ser recuperada, se o incômodo não gera uma mudança de consciência e as pessoas apenas voltam a comer animais.

Mas mesmo que isso ocorra, e ocorre muito, não deixa de evidenciar algo a se pensar.

A série está disponível na Netflix.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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