Categorias: Pequenas Narrativas

Por que uma pequena ave morta em um aviário não atrai atenção?

Foto: We Animals

Por que uma pequena ave morta em um aviário não atrai atenção? Se estivesse em outro ambiente, atrairia? Mas que tipo? Que reprova ou contempla? Que repudia ou deseja? Depende da apresentação e da condição do corpo, que é da carne.

O que me chama atenção é a fragilidade do corpo caído, onde a luz chega sem chegar muito. Os olhos apagados como pedaço de tecido fino e acinzentado, como se tivessem sido lacrados.

O peito depenado virado para cima e as penas faltosas, formando dois riscos finos e um mais grosso atrás e abaixo dos olhos. De onde vêm? Quem olha, passa e ignora. Se estivesse caído na rua, que tipo de atenção receberia? Não cresceu o suficiente para a mesa.

Os calçados que passam lançam coisas sobre seu corpo. Não é intencional, não os passos que evitam pisar no corpo morto. Mas e o viver e ali morrer? Seria um alívio não ser agarrado de ponta-cabeça pelos pés para ser empurrado dentro de caixas apertadas?

E o calor a caminho do matadouro para receber choque na água e degola? Seria morrer sem sair dali uma libertação? Ser ignorado no chão, onde pode apodrecer em paz, ou ser jogado no lixo é melhor do que ser morto e vendido no supermercado? Não posso pensar em uma situação sem pensar em outra.

A pena amarela não é só amarela. É também esbranquiçada, descorada. Quando me afasto do corpo, parece minúsculo, e que arrancaram dele muito do que havia dentro sem precisar abri-lo.

Não tocam no corpo. O retiram com uma pequena pá, também simbólica, do que não se quer tocar. Quem foi esse o quê? Sei apenas que não será comido, não até onde posso ver. Não mais por humanos, imagino.

O espaço do corpo vira um vazio, com uma porção de penas que se dispersam. É isso que fica dessa experiência. E não é tudo sobre uma ausência?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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